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Porque sou esquisito em relação aos cafés

Apesar de achar que o panorama melhorou bastante nos últimos anos, continuo a ser esquisito relativamente aos cafés que frequento. Não há muito para rever neste artigo de 2002:

Decoração: Há cafés que são verdadeiros atentados. São daqueles com espelhos na parede, cortados na diagonal, ou com todo o reportório de espelhinhos da Tuborg e da Carlsberg colocado ao acaso. Apresentam mesas e cadeiras com tampos de plástico cinzento, a imitar granito, cadeiras estas que se roçam metalicamente no chão de marmorite. Costumam ter umas plantas de plástico iluminadas por luzes fluorescentes verde ou roxo. Em suma: são locais onde dói estar.

Putos: Até podemos estar num café agradável, construído com gosto, mas eis que aparecem dois putos a estragar o sistema: Depois de descobrirem o ruído satisfatório de pisar com força o chão de madeira, nada os parece impedir de correr para trás e para a frente, até um deles cair e desatar aos berros. Dizem que o melhor contraceptivo são os filhos dos outros. É pena que os pais destes miúdos nunca tivessem presenciado tão aberrante cena num café.

Ruídos industriais: Quantas vezes uma agradável conversa é subitamente interrompida pelo silvo metálico e ensurdecedor do jacto de uma máquina de café? E o estardalhaço que é quando começam a arrumar as chávenas, não na cozinha mas perto dos clientes, com um zelo só comparável ao de um maníaco com uma picareta numa loja da Vista Alegre? E já nem falo nas situações absolutamente bizarras, como daquela vez em que estava eu num café requintado e subitamente alguém começou a aspirar o chão, transformando o ambiente no de um consultório de um dentista. É sabido que o típico patrão tuga não paga aos empregados para que a limpeza seja feita depois do fecho, logo a culpa é sua: perdeu um cliente.

Namorados: Existem de facto alguns cafés que são cenários de um certo romantismo e acho perfeitamente natural que possam ser frequentados por casais apaixonados. Só peço que namorem em silêncio, em vez de se pôrem na comidela com linguados húmidos e sonoros estilo filme americano dos anos 90 na mesa atrás de mim, enquanto eu me tento concentrar e acabar a porcaria deste artigo!

Armantes e loucos: É verdadeiramente revoltante é o ‘falar alto selectivo’ de gente que quer que todo o café ou bar fique a saber que conheceram pessoalmente um gajo dos Radiohead, que estiveram em Londres em 1972, ou que vão expor umas fotos sei-lá-onde. É para isso que existem os weblogs afinal. Mas piores mesmo são as ‘atracções turísticas’ que subitamente começam a declamar poemas que não rimam aos berros ou que aproveitam a minha t-shirt para nos espetar com uma conversa indesejada, além do hálito a aguardente.

Adultos com brinquedos: Embora eu ache útil e seja frequentemente utilizador das redes sem fios gratuitas de alguns cafés, irritam-me profundamente as pessoas que não tratam o portátil como um qualquer livro ou jornal que com elas tivessem, mas sim como um brinquedo. Chamando a antenção para a maçãzinha reluzente (ou pior, para a maçã autocolante na tampa do seu Acer), vêm filmes e metem música. Piores ainda são os grupos onde um iPhone salta de mão em mão, cada pessoa experimentando um pouquinho do milagre da tecnologia (como temo a primeira aparição pública dum iPad!). Ou aquelas pessoas que espalham os brinquedos todos (computadores, telefonee, máquinas fotográficas, leitores de MP3) sobre a mesa. Quando era miúdo os meus pais obrigavam-me a escolher um único brinquedo para levar quando saía de casa com eles. Acho que é um bom princípio.

Horário: Sou um viciado em cafeína, e tenho a mania: não gosto de beber café feito na cafeteira, nem vou muito à bola com os Nespressos e afins. Quero o meu espresso, o meu cimbalino. Chateiam-me os cafés em que não existe a noção de dever cívico, de que são um serviço público essencial com a responsabilidade de administrar café a adictos como eu, faça chuva ou faça sol, seja Domingo ou Feriado, seja Natal ou Ano Novo.

É por isto que sou esquisito em relação aos cafés.

Procrastinar

Num verdadeiro exercício de ‘metaprocrastinação’, aqui fica um artigo que escrevi há quase um ano, o penúltimo da história do Cafeína. Definitivamente, o novo ano é tal como o anterior e até as minhas desculpas de 2010 são idênticas às de 2009:

Procrastinar: Deixar para depois o que podia fazer agora. Deixar para amanhã o que podia fazer hoje. Ou já agora para a próxima semana. Ou para quando for oportuno. Ou seja, protelar, coçar os tomates, coçar o escroto, coçar a micose.

A Procrastinação é tramada, não admira que a Preguiça seja um pecado mortal. Arranja sempre uma desculpa:

Vou só acabar de ver isto que comecei ainda agora a ver na televisão. Vou buscar um iogurte ao frigorífico. Vou só espreitar o mail. E já que estou online, o meu blog. E os meus feeds. E se a mulher da minha vida não estará entre os recommended friends do Facebook.

Pronto. Vou trabalhar. É cuspir qualquer coisa para o Twitter e estarei pronto.

Trinta segundos depois:

Lá está a besta do vizinho a bater com a porta da rua e a falar alto nos corredores. A rua está pavimentada a ‘paralelo’, não tenho vidros duplos e ouvem-se muito os carros que passam. O computador também faz barulho. Vou pôr música.

Descubro que muitos dos álbuns da minha biblioteca não têm capa. Sinto uma necessidade imensa de corrigir este problema.

Duas horas depois:

Tenho que escrever isto no Twitter. Já agora deixa ir ao Facebook. E ao blog. Pois é, falo muito mas devia saber algo mais sobre o John Coltrane. Wikipedia.

Quatro horas depois:

Vou definitivamente trabalhar. Maldita procrastinação! Que, pensando bem, é a mãe de todas as invenções. O tipo que inventou a fotocopiadora perdeu várias décadas da sua vida a tentar não ter que copiar coisas à mão.

Boa frase: vou escrevê-la no meu blog. O trabalho pode ficar para depois.

… dos Simpsons, do jantar, e do Bruno Aleixo…

A ressaca

Saí da festa de passagem de ano, eram cerca de seis e meia da manhã. Foi uma festa divertida, que infelizmente não me senti incapaz de apreciar na totalidade, traído pelo excesso de consumo de álcool, que levou a uma enorme dor de barriga (talvez pela enorme quantidade de fruta que ingeri, esquecendo-me que o meu estômago não é um recipiente adequado para fazer sangria) e ao revelar da minha tendência para estados de embriaguez depressivos. O que leva a que este artigo seja patrocinado pela Coca-Cola (ainda não conheço melhor alívio para a ressaca).

Desci os três (ou seriam quatro?) andares de elevador, mentalizando-me para o confronto com o frio e a chuva que iria encontrar no caminho para a estação de metro. Desci depois a rua, tentando concentrar o máximo de sobriedade nos pés de forma a não escorregar na calçada – o porquê do uso do calcário em ruas íngremes da cidade do Porto sempre me ultrapassou. Passei junto do stand de motorizadas de onde, segundo um amigo me contou, alguém uma vez saiu sentado numa coisa de 1000cc para embater com violência num muro mesmo em frente, do outro lado da rua.

Não havia ninguém no caminho. Virei uma esquina, e logo a seguir outra. Vi a entrada da estação de metro, uma reconfortante luz fluorescente que sinalizava o momento em que finalmente poderia fechar o guarda-chuva. Ouvi um carro que se aproximava, conduzido pelo primeiro ser humano que encontraria em 2010 fora da festa em que estive. O primeiro Anónimo do ano. O carro buzinou e pareceu-me abrandar. Seria afinal conduzido por alguém que conheço?

Olhei e vi um indivíduo a fazer-me piças. Uma fracção de segundo antes de o Golf prateado acelerar para fora do meu campo de visão. Entrei na estação de metro e fechei o guarda-chuva, pensando:

2010 – a mesma merda.

Quase lá

Está por horas este Ano dos Infernos que foi 2009. Um ano passado a dizer “pêra pêra pêra” repetidamente para mim próprio, e a relembrar os valiosos ditos da minha falecida avó, tais como:

“Se queres que a tua vida te corra bem, não contes dela a ninguém.”

2009 foi também o Ano das Lições, e ainda o Ano das Ilações. Serão aliás o meu pequeno prémio de consolação por ter chegado a este dia, salvo e relativamente são. Aprendi o valor de estar com quem estar comigo querendo eu igualmente estar, e o valor de não estar com quem não quero estar. Coisinhas simples e das quais tenho vergonha de ter demorado trinta anos a apreciar.

Foi, no fundo, o Ano dos Males Necessários. É por isso que agora, chegado a 31 de Dezembro sem muitas mais Questões Problemáticas a Resolver, brindarei muito em breve com os meus amigos a um grande 2010!

Histórias

Estou quase a acabar de ler Generation A do Douglas Coupland. O livro não é extraordinário, estando bastante longe de algo como o Jpod, mas fala bastante de algo que me tem ocupado os pensamentos nos últimos tempos: é que acredito que a vida é uma sucessão probabilística de acontecimentos e de momentos, e qualquer coerência aparente apenas poderá ser

  1. fruto das probabilidades (escassas) / sorte;
  2. resultado de um esforço muito deliberado (e muito pouco compensador).

A vida não é, portanto, um filme. Ou qualquer outra forma narrativa. Uma verdadeira biografia será, na melhor das hipóteses, uma massa desinteressante pontuada por alguns momentos de interesse. As histórias da nossa vida que contamos (incluindo as que valem realmente a pena contar) são sempre relatos posteriores. Pequenas narrativas fruto de uma ordenação e reordenação do passado.

in 'Generation A' de Douglas Coupland

in 'Generation A' de Douglas Coupland

Ninguém me irrita mais, portanto, que as pessoas que querem fazer o contrário, vivendo momentos escritos e planificados. Dois exemplos muito diferentes:

  1. A mulher que no meio de uma discussão não desfere um ataque verbal contra mim mas, pelo contrário, diz uma deixa (ex. “Eu não estou à procura de uma relação”) para ser apreciada por uma audiência invisível. Ouve: a nossa vida está aqui mesmo – não somos actores em nenhum filme francês.
  2. O tipo que, enquanto eu esperava aflito no corredor do bar, snifava coca na casa de banho armado em Gordon Gekko, provavelmente usando um Andante (passe mensal dourado) para desenhar a linha na caixa do autoclismo. Enquanto me tentava abstrair das três SuperBocks na bexiga, reflecti em como ninguém estava a ver o gajo*  -  porque é que não se limita a enfiar aquela merda pelo nariz acima com o dedo?

Cinematografizar a vida, admito, é algo em que todos caímos. Se vou entrar num sítio, penso na forma como o George Clooney ou o Brad Pitt entram nos sítios nos Ocean’s. Mas parte de mim espera que no fundo ninguém repare – precisamente porque não sou nem o George Clooney nem o Brad Pitt nem, infelizmente, me pareço com algum deles. Mas existe algo de fundamentalmente nefasto neste comportamento: sinto que estou a lidar com pessoas que se referem a elas próprias na terceira pessoa, estilo “o Jardel tem treinado bem e acha que o mister confia nele”. Ou com alguém que, quando se lhe pede que desenhe o que viu, se inclui a ele próprio na desenho.

Os meus olhos estão aqui mesmo, na minha cabeça, e só vejo para fora.

* Muito bem, nem eu. Mas o gajo saiu da casa de banho raiado e a fungar e juro que ouvi o que presumo ser um cartão plastificado a raspar qualquer coisa em cerâmica – mas ahah! aí o indivíduo até tinha uma audiência! Ora bolas…


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