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Catálogo de pensamentos

O Thought Catalog tira-me constantemente as palavras da boca e da ponta dos dedos. Apenas nas últimas horas, dois exemplos, aos quais dou o meu comentário pessoal sem acrescentar nada ao que estava lá escrito:

1. Um artigo em que o autor pede encarecidamente às pessoas com quem começa a travar amizade que o avisem atempadamente se tiverem namorado. Estando essa situação longe de ser exclusiva do mundo gay a que o autor se reporta, dei por mim a concordar tanto que daqui envio um abraço sentido ao Ryan O’Connell. Quantas vezes não senti esse mesmo súbito embaraço perante a súbita menção, por parte de uma mulher com a qual achava que as coisas poderiam estar a ter uma evolução favorável, de um namorado ou (talvez pior) do seu enorme interesse noutro tipo qualquer? Que raio?! Vejamos: a minha perspectiva sobre alguém que esteja a começar a conhecer é a perspectiva de um homem heterossexual solteiro; não é, de todo, a perspectiva de um eunuco fraterno. Longos chats, trocas de mensagens, e um ou dois encontros para café, com que propósito? Se for pretendido como amigo, é provável que vá ouvir muitos desabafos sobre o tal namorado, portanto mais vale assumir a sua existência dele desde o início - se sentir essa empatia serei amigo de qualquer forma.

2. Também do Ryan O’Conell (que parece ser, em termos de monopólio sobre a produtividade, o NiceGuyEddie lá do sítio), um artigo sobre o acordar sozinho ao Sábado de manhã e reflectir na futilidade de tudo o que fizemos durante a semana, na total ausência de uma progressão nas nossas vidas. Concedo que não há nada como ser solteiro para dar largas ao niilismo: todo o trabalho, todas as dores de cabeça – o eu estar aqui neste momento num café onde na mesa ao lado as pessoas não conhecem a etiqueta básica de cortar o som aos seus portáteis enquanto vêm vídeos – servem para quê? Qual o propósito de cada dia? Para provavelmente acordar sozinho no próximo Sábado; para ir sobreviver até ao seguinte, e até ao seguinte, tentando que pelo meio algo aconteça que mude a situação e me torne um pouco menos dependente da leitura de blogues como o Thought Catalog e dos desabafos de amigos e amigas para perceber que todos estamos no mesmo barco, e temos este tipo de pensamentos.

E vai daí, em vez de estar aqui a redizer aquilo que li com as minhas palavras – porque é aquilo que de facto penso -, direi apenas que o Thought Catalog no fundo é aquilo que eu queria que o Cafeína tivesse sido (daí ter mencionado o meu antigo nickname), mas que fui totalmente inábil (e imaturo demais) para conseguir.

E pronto. Ide.

Redes Anti-sociais

Basta uma espreitadela à barra lateral deste weblog para ver que eu, como qualquer outro cidadão exemplar da Internet, também aderi a umas quantas redes sociais, apesar das minhas paranóias acerca da construção cooperativa de pequenos Big Brothers em que não precisamos de ser vigiados por organizações secretas porque achamos giro abdicar da privacidade voluntariamente. Há também uma parte de irritação mais imediata relativamente às redes sociais, tema do meu artigo para o Cafeína de Junho do ano passado:

Estava eu a beber umas cervejas com uns amigos num bar algo escuro e com música ao vivo e reparámos em duas moças aos risinhos noutra mesa, meio escondidas atrás de uma maçã fluorescente. “É o Futuro”, pensei eu, “o petróleo está a preços de ficção científica e a malta sai à noite com o portátil”. Mas achei que valia a pena averiguar o porquê dos risinhos. Fui buscar uma rodada ao bar e espreitei o ecrã do computador. Vi o que temia: o Hi5. As moças estavam a passar a noite num bar, a micar os gaijos da Internet!

Eu confesso: tenho um perfil no Hi5 (e no Facebook, no LinkedIn, no Star Tracker, no MySpace – mas nunca tive paciência para este – no Vimeo, no YouTube, no Twitter, no Twine… bem percebem a ideia). Tenho um catálogo de amigos, amigas, algumas pessoas que não conheço de lado nenhum mas não quis ofender, e inclusivamente cães falantes. E o mais estranho é que não sei explicar porquê. Ou se calhar sei: somos tristes e sós. Esperamos que alguma amiga das nossas 276 amizades no Hi5 seja a mulher da nossa vida, além de gira e boa. Esperamos que algum contacto de um dos nossos 353 contactos no LinkedIn tenha de alguma forma a responsabilidade de gastar o dinheiro do Joe Berardo num jovem licenciado com pouca experiência.

As redes sociais são um pouco como jogar no Euromilhões. Todos queremos alguma coisa de alguém, por vezes precisamos é de descobrir de quem.

São também óptimas ferramentas para reencontrar pessoas. Por exemplo: há uns tempos vi num café uma Miúda Gira que andou na mesma escola que eu, e que na altura nunca tive coragem de abordar. O que é que faço? Ajo como Um Homem e vou lá meter conversa? Ou chego a casa, entro no Hi5 e procuro o grupo da nossa antiga escola? Eu fui pela segunda hipótese. Ali está uma rapariga que costumava dar-se com a Miúda Gira, deixa ver que amigas ela tem… e ali está, a Miúda Gira. Carrego ou não carrego? Carrego. Logo para começar, o perfil tem um fundo arco-íris que o torna quase ilegível. E depois ali está, o inevitável favourite book, “O Alquimista” de Paulo Coelho.

Miúda Gira, estou contente por não ter metido conversa contigo.

É evidente que isto é um pouco alienante, creepy e um pouco alienante e creepy. Também já se deu o caso de eu conhecer Miúdas Giras que não saem para tomar café porque estão ocupadas, ocupadas a juntar mais 27 amigos à colecção, a atirar almofadas a Fulano, a fazer cócegas a Cicrano, a escolher os seus dez signos astrológicos preferidos e a enviar videos do Enrique Iglesias a toda a gente. Sim, sou um ressabiado. Mas depois ainda tenho as amigas e amigos que ficam magoados por não serem top friends. Onde é que isto acaba?

Eu sei onde acaba. Top friends é um conceito limitado. Acho que o Hi5 ou o Facebook para serem perfeitos dever-nos-iam permitir cotar os nossos amigos com estrelas: “Hm, a A. chega atrasada sempre que vamos sair: três estrelas”. “O B. está sempre a cravar boleia: duas estrelas”. Ficaríamos todos só com bons amigos. Muito poucos amigos, mas bons amigos.

A internet é uma merda?

Este artigo foi originalmente publicado no Cafeína a 11 de Outubro de 2003:

Embora pareça paradoxal, um site chamado internetisshit.org fornece alguns bons argumentos rumo à conclusão de que a Internet é uma merda. De facto, tenho que concordar parcialmente com certas opiniões que afirmam que a Internet é uma merda, e que o seu impacto na sociedade acaba por ser limitado, principalmente quando comparado com o impacto provocado pelo aparecimento, em paralelo, dos telemóveis, que reformularam de forma radical a nossa forma de gerir o tempo e as relações pessoais. Mas penso que há várias formas de desilusão com a Internet, e o tal site apenas manifesta a sua desilusão face ao mito, muito difundido, de que a Internet será a maior biblioteca do Mundo.

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