23.07.2008

Eduardo Morais

#13 · Com. ?

Enchendo Chouriços

Cultura em Portugal. Três palavras que levam a reacções tão diferentes quanto os dez milhões de portugueses. Temos por exemplo o Tó, que fica instintivamente enjoado com a “merda dos intelectuais, paneleiros!, parasitas de merda!, ide trabalhar!” - pensou ele quando bebia uma cerveja no café da esquina, paga com o dinheiro que a Manuela, uma actriz desempregada, teve que entregar à Segurança Social. Para a Manuela, a Cultura em Portugal lembra-lhe o trabalho que não tem. Hoje, em desespero, até foi baixa o suficiente para ir ao casting para um musical do Filipe La Féria. Já ao Dr. Rui Rio a Cultura lembra os espetáculos que tem que organizar para conquistar votos onde interessa - na Foz e nos Bairros. Aquelas coisas mais maradas e/ou sérias de que a Manuela gosta que se fodam!, ela nunca iria votar nele de qualquer forma. Já para Guilherme, seu ex-namorado e actual gay e parte do elenco de um musical do La Féria, Cultura é prestígio, dinheiro, coisas bonitas e uma maneira de conhecer rapazes giros. É ser superior a pessoas como o Tó que lhe batiam na escola.

Já para mim não existe Cultura em Portugal. Há Jogos e Esquemas que envolvem a produção de muito comentário e conversa (como este artigo) e por raras vezes, a produção de alguma coisa que realmente se pode experienciar - uma peçazinha, um filmezito, uma exposiçãozeca. Muito de vez em quando, até pode ser alguma coisa decente. Mas como estes casos de verdadeiro sucesso não têm piada, vou falar da generalidade, ou seja, do Fracasso.

Em Portugal há dois tipos de Fracasso artístico. Há aqueles Fracassos muito bem disfarçados por Egos e Interesses de modo a que o Medo nos leve a considerá-los sucessos (nem o Sócrates resistiu a ter medo do Manuel de Oliveira*). Destes já falei. Depois há o Fracasso inequívoco, as coisas de que ninguém gosta. E há em Portugal um sintoma muito característico da obra fracassada. Já todos o sentimos, aquele momento de iluminação quando ainda o filme ou a peça está no início, e sabemos que o desastre é inevitável, a noite está estragada e é tarde de mais para tentar pedir o reembolso dos bilhetes. É o momento em que temos consciência do erro que é vir ao teatro num primeiro encontro, por mais encantadora que a ideia parecesse. É o momento em que começamos a pensar naquilo que vamos dizer para não ofender a pessoa que nos enviou o convite para assistir à curta-metragem em que trabalhou.

É o momento: “Isto quer-me parecer que estão a encher chouriços!”

É isto que os fazedores de opinião que por aí andam, verdadeiros Príncipes das Trevas, optam por ignorar. Veja-se o tal Cinema Português. Diz-se, e com razão em muitos casos, que os filmes portugueses são lentos, ‘pesadões’. No entanto a crítica legitima os Mestres do Lento, quando na realidade estamos perante casos agudos do Enchimento de Chouriços. É que quando há pouco dinheiro e se insiste em filmar em película de 35mm, algo tem que ser sacrificado. E lá saltam fora umas quantas cenas, uns quantos locais, uns quantos dias de rodagem. Faz-se uma curta, quando muito média-metragem. Depois na Montagem estica-se cada cena ao máximo. Consequência, curtas-metragens de 120 minutos. Mérito artístico ou esperteza saloia?

Acredito na Esperteza: Ou tenho visto más peças, ou não há meio em que o Enchimento do Chouriço seja mais agudo do que no Teatro. A menos que estejamos perante o meter em cena de um clássico (e mesmo aí…), há nas peças de duração superior a uma hora uma probabilidade grande de que metade do tempo seja gasto em coisas sem nexo nenhum, a não ser gastar tempo. Sentimos que estão a tentar justificar o preço dos bilhetes, como se pagar 7,50 euros fosse mais justificado numa seca de duas horas do que numa boa peça de uma hora.

Penso que tudo isto advém do Bem Servido. Desde pequenos que ouvimos a lenga-lenga “aquele Restaurante é bom, as doses são Bem Servidas”. Entenda-se, as doses são grandes, não interessa que mudem o óleo da fritadeira de duas em duas semanas e que haja todo um ecossistema na salada. Equaciona-se o Bem com Quantidade.

Temos filmes ao metro, teatro ao quilo (só não há Quantidade no número de produções). Até as exposições se medem por quantidades - Serralves bate recordes de visitantes (porque bate recordes de duração), não interessa que estejamos a ver Restos de Robert Rauschemberg (um espetáculo tão desolador como uma Zara à hora do fecho nos últimos dias de saldos).

Onde está a Cultura no meio disto? Talvez a encontremos não na Arte, mas na Gastronomia. Talvez no bom chouriço…

* Eu sei que actualmente o senhor se chama Manoel de Oliveira, desde que foi ao programa da MTV ‘Pimp My Name’.

Tags: ed, sociedade, portugal, cultura






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