Bon voyage!
Tive a ideia de fazer férias a andar de carro à volta da Europa, mas a sorte nada quis comigo. Os hotéis estavam todos cheios, salvo os que cobram os proverbiais olhos da cara, por isso tivemos de dormir no carro, no meio de temperaturas tropicais e chuva intensa. Não havia GPL nas estações de serviço, que estavam infestados por hordes de ciganos em trânsito migratório, todos a irem para uma fête religieuse ali para Narbonne. Ninguém nos servia café à noite, porque pensavam que éramos ciganos em trânsito migratório, mas o que esperavam depois de passar a noite num carro quente e suado? Que se lixe a grande viagem, que se f*da ver os Alpes de perto, vamos mas é para casa.
Mas ainda tirei uma ou duas ilações:
1. Andorra. Já não ia lá há dez anos, e nem reconheci o lugar. Andorra é uma Las Vegas europeia, mas em vez de casinos, têm centros comerciais. As slot-machines deram lugar a infindáveis postos de venda de tabaco, e em vez de strippers, temos tugas radicados com um catalão ainda mais arranhado que o meu portunhol.
2. Encontrar um espanhol que sabe falar baixinho em público é como encontrar um Yeti na cama com o Pai Natal e a Fada dos Dentes: não vai acontecer.
3. Há quem diga que certas localidades são apenas duas ruas. Andorra não passa de uma rua, uma nacional tortuosa de altos e baixos onde os andorrenhos transitam a velocidades doidas (por influência tuga ou pela gasolina ser tão barata ou os dois factores combinados).
4. Carcassonne é como produtos da Apple: bonito, bem apresentado, mas exageradamente caro, e só depois é que se vê que a concorrência também é boa.
5. Tentar falar o nosso melhor francês para comunicar com franceses é um erro. Eles são como os italianos e espanhóis, gostam de corrigir cada pequeno erro de pronúncia e até parecem ofendidos por não falarmos gaulês perfeito. Mas se disser: Je sweez onglay ay je shersh an restaurant, seal voo play, pas de probleme! “Oh, you are engleesh! I will spik ze english far yoo!”
6. Atravessar a Espanha de carro é duro, e às vezes precisamos de ajuda. Existe à venda nas bombas espanholas uma chiclete chamada Despierta-T!, que se gaba que duas pastilhas equivalem a uma chávena de café. Não sei se é verdade, mas pelo menos garanto que sabe a detergente.
7. Os franceses amam queijo da mesma maneira que odeiam ingleses. Logo, se um inglês lhes disser que também há muitos queijos em Inglaterra, eles levam um bocado a peito.
8. A probabilidade de preferirmos fingir que somos do Burundi em vez de assumirmos sermos oriundos de Portugal, porque os poucos tugas que vemos à solta no estrangeiro são tão parolos e malcriados, é muito alta.
9. Em França, uma tosta mista (croque monsieur) custa mais do que um hamburger (€5 ou €6).
10. As minhas tripas são estranhas. Fiquei com o intestino mais preso do que o Vale e Azevedo depois de gerir o Benfica, mas só quando eu estava do lado de lá do meridiano de Greenwich. Mal atravessei a fronteira e parei na Guarda, o teor do meu intestino fluiu para dentro da retrete como os habitantes de Rio Tinto e Gaia fluem para dentro do Coliseu em dia de concerto do Tony Carreira.
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