Um Rio de merda
Gostava de perguntar àqueles que, como eu, vivem na cidade do Porto, que grandes mudanças sentiram desde que o PSD tomou posse da Câmara Municipal? Que grandes obras da responsabilidade do executivo de Rui Rio tivemos na cidade (fora terminar aquela grandiosa obra, o viaduto da Prelada)? Que grandes eventos culturais houve na cidade que tiveram a mão da Câmara por trás (descontando aquele bastião de cultura, Filipe La Féria’s Jesus Christ, Superstar)? Quanto a coisas que Rio prometeu, já temos menos arrumadores nas ruas? E o grande estandarte desta Câmara, a reabilitação urbana, alguém já sentiu os seus efeitos? “Alto!” gritarão os defensores do Presidente de Câmara da segunda maior cidade do país. “O Porto voltou a ter um circuito de corridas automóveis!” Pois, e o resto da cidade estagnou.
Olhando a partir de, digamos, 2003, das maiores surpresas que se poderia esperar era Rui Rio voltar a ser eleito nas eleições seguintes. Mas o PS parece que se estava a borrifar se a Câmara do Porto é deles ou não (e aparenta continuar a ser o caso), e Rui Rio foi reeleito sem um adversário à altura. Tanto desta como da primeira vez, foi das piores coisas que alguma vez aconteceu à cidade do Porto.
Uma das vertentes da gestão do anterior executivo (que pode não ter sido brilhante, mas era bem melhor que a actual) era voltar a unir a parte oriental do Porto com o resto da cidade. Devido à linha de ferro, tudo que que havia para lá do canal do comboio (e muita coisa do lado de cá também) foi fisicamente cortado do resto da cidade do Porto. Só havia quatro passagens para o lado oriental (a marginal, o Freixo, Rua de S. Roque e depois só na Circunvalação junto a Rio Tinto). Chegou-se a acreditar que zonas como Campanhã, Contumil e S. Roque, que durante tantos anos foram isoladas da cidade pela linha férrea e completamente ignoradas, seriam reabilitadas e modernizadas. Construiu-se o viaduto da Corujeira, o nó do Mercado Abastecedor, os acessos ao Dragão e uma rede viária extensa em grandes partes de S. Roque e Campanhã. Rui Rio limitou-se a inaugurá-los, colher os louros e ficou-se por aí. Por exemplo, fez-se uma longa rua nova que se estende desde a Rua dos Currais (esta última também alargada e reabilitada) até à Rua de Contumil, junto do Dolce Vita. A Câmara do PSD nem sequer se dignou a dar-lhe um nome, mesmo depois da medida ridícula de por as placas de ruas de fundo verde e com uma letra suficientemente pequena para que um automobilista perdido não consiga lê-la a partir do carro. As ligações da dita rua sem nome ficaram na proverbial gaveta e os arranques que foram executados limitam-se a acumular lixo. Voltou-se a ignorar e isolar o Porto a Leste, e continuará a ser assim enquanto estiver na CMP este Presidente.
Mas podemos nos orgulhar do Circuito da Boavista, que atrai multidões ao Porto. Multidões! Aliás a insistência de Rui Rio nos carros antigos é muito bonito, mas parece-me que isso devia ser uma excentricidade de um multimilionário do que o cartão de visita de um governante. A insistência na linha da Boavista é apenas para pagar as obras do troço da avenida refeito para receber as corridas. Faz sentido, pois para que serve uma linha na Boavista? Ligar a Senhora da Hora à Rotunda da Boavista? Já existe essa ligação desde que há Metro no Porto. Para servir quem mora na Avenida e à volta? Esses não andam de Metro, andam de Bentley e Jaguar.
Ainda no outro dia, numa entrevista à RnTV, Pedro Abrunhosa sublinhou sucintamente algumas das puras estupidezas de Rui Rio e da sua gestão. Por exemplo, Abrunhosa falou do marketing político de Rio, “o mais reles marketing possível,” que é o de um tipo caladinho que não chama atenção a não ser que lhe dê jeito. Anda num carro clássico que gasta e polui mais do que quase qualquer carro moderno, mas é o que o tuga típico vai ver e dizer “sim senhor, este Rio é um tipo porreiro.” Não sabe dizer porquê, mas gosta.
Talvez a crítica mais evidente é a pura destruição da cultura no Porto. Como Rio resolveu investir em carros, compensou ao desinvestir, ou melhor, estrangular algo que o Porto vinha mostrando e cultivando nos últimos anos: uma vibrante vida cultural. Lembro-me de António Feio apresentar a peça O Que Diz Molero aqui no Porto, e ressalvar como os espectáculos na Invicta estarem sempre esgotados, em contraste com menores audiências em Lisboa, uma cidade com uma população cinco vezes maior. A Porto 2001 e a Casa da Música, por muito defeitos que tenham tido (não vamos dizer que não), puseram o Porto no mapa cultural europeu. Por contraste, o único teatro da responsabilidade da Câmara foi entregue aos bichos para exibir importações duvidosas de Andrew Lloyd Weber. Abrunhosa utilizou o exemplo dos Nazis, que trataram de abafar a cultura quando chegaram ao poder, pois a cultura é a identidade de um povo, é o que leva as pessoas a reflectir, pensar e questionar. E convenhamos, é a última coisa que alguém coma actuação de Rui Rio quererá. Não que seja Nazi, como disse o próprio Abrunhosa, mas é uma atitude semelhante.
Agora, passeiem pela Baixa. Vejam a propaganda espalhafatosa da Câmara gritando que a Baixa está a renascer. E depois contem os edifícios abandonados e comparem com o número de edifícios reabilitados.
Um exemplo estrondoso da pura mentira que é a dita reabilitação do Rui Rio é a Rua Mouzinho da Silveira. Pode não parecer mas esta artéria liga uma das zonas mais turísticas da cidade (a Ribeira, os cais para os passeios de barco e a ligação às caves do Vinho do Porto) aos Aliados, à Estação de S. Bento e a Linha de Metro, que é onde os turistas chegam para visitar o Porto. Ou descem pelo Funicular dos Gundais (é bonito mas é fora de mão para quem não conhece a cidade) ou descem pela Mouzinho da Silveira. Qualquer outra cidade de um outro país europeu embelezava um rua desta importância. Mesmo em Fevereiro ou Outubro, Mouzinho da Silveira tem turistas a percorrer a rua, e deparam-se com edifícios lindos mas abandonados, estragados, em ruínas e entregues aos drogados. E é este tipo de negligência que quase levou à revogação do estatuto do Porto de Património da Humanidade.
Mas não pensem que a Baixa não vá ser alvo de intervenções. Vai, mas não vai ser reabilitada. Vai ser entregue a promotores privados que vão transformar o centro do Porto num complexo de condomínios fechados e centros comerciais de betos que vão matar de vez o centro do Porto. Não acreditam? Vejam o que aconteceu e vai acontecer com o Aleixo. Milhares de pessoas coercivamente deslocadas para que Rio e os amigos possam ter umas casitas jeitosas com grandes vistas.
Só para terminar, pergunto se há alguém que me possa constatar uma única medida de Rui Rio, UMA, que tenha tido um impacto positivo na cidade.
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