Pássaro Imortal
Aqui no Cafeína, orgulhamo-nos da nossa polimatia, quais Da Vincis do Século XXI! Estamos aqui para privilegiar as massas com o nosso conhecimento vasto e variado!
Falando agora de forma menos jocosa, a diversidade deste espaço, na minha modesta opinião, sempre foi um ponto a seu favor, e gostaria de criar o hábito de dedicar alguns artigos a partilhar com os leitores alguns pensamentos soltos sobre assuntos de qual não sou perito, mas que acho suficientemente interessantes para deixar aqui como matéria de reflexão e até de debate.
E sem querer parecer presunçoso, quero também elucidar assuntos provavelmente pouco atraentes para o leitor casual. Talvez, neste e em futuros artigos, consiga estimular a vossa atenção para coisas que vos possa parecer chatas ou estúpidas. Mas avancemos para aquilo que vos proponho agora para ler.
Hoje em dia, a subida dos preços do combustível atinge quase todo o mundo dito “civilizado”, e um dos sectores mais afectados é da indústria das transportadoras aéreas. Os aviões são grandes, caros e mamam combustível como se não houvesse amanhã. Mas não tenhamos pena dos gajos: se os aviões se tivessem desenvolvido como os carros desde os anos 50, não tínhamos os sorvedouros voadores poluentes que nos enchem os céus actualmente. Os melhores e maiores avanços feitos na aeronáutica contam com cerca de cinquenta anos de existência, e poucos exemplos serão mais ilustrativos do que os feitos, até agora inigualados, do incrível Lockheed SR-71, o lendário “Pássaro Negro”.
Passado apenas pouco mais do que uma década após o fim da 2ª Guerra Mundial (e o consequente advento de aviões militares a jacto), começar-se-ia a concepção e construção daquilo que seria o aparelho voador a jacto mais veloz construído até hoje. Mas primeiro, vamos enquadrar um pouco mais este avanço.
O avião de reconhecimento americano Lockheed U-2 conseguia voar tão alto que se pensava ser inatingível por qualquer arma, seja míssil ou bala. Os U-2 sobrevoaram a União Soviética durante quase quatro anos sem serem incomodados pelas defesas dos comunistas. Mas em 1960, o avião pilotado por Gary Powers foi abatido, após uma investida por caças Mig-21 e mísseis terra-ar. O U-2 voava a grandes altitudes porque era extremamente leve, mas consequentemente era frágil, e a onda de choque provocada pela destruição inadvertida de um Mig-21 por um míssil terra-ar destroçou as asas do U-2 de Powers, que acabou por ser capturado.
O SR-71 nasceu como nova estratégia para espiar os soviéticos. Além de voar a altitudes extremas, seria demasiado veloz para sucumbir a qualquer arma no arsenal russo. A concepção e construção do avião, inicialmente projectado para ser um caça, foi um feito notável em si. Foi preciso desenhar e fabricar as ferramentas e moldes específicos para este projecto a partir do zero. 90-95% do avião seria composto por uma liga de metal exótica e rara, o titânio, até aí nunca empregue tão extensivamente num avião. O processo de fabrico era tão minucioso, cuidado e sensível, que a água para arrefecer as juntas soldadas tinha de vir de um local específico e colhida numa época específica, pois as impurezas consequentes influenciavam a qualidade e durabilidade das soldaduras. A tinta da fuselagem e o próprio revestimento das ferramentas e dos moldes teve de voltar a ser pensada e refeita depois de se verificar que as suas propriedades químicas eram demasiado corrosivas para o titânio.
As primeiras versões foram os caças A-12 e YF-12, mas a sua função foi alterada para reconhecimento estratégico, e em 22 de Dezembro de 1964, um SR-71 descolou pela primeira vez. Volvidos poucos anos arrebataria todos os recordes de velocidade e altitude para aviões a jacto, recordes que foram ultrapassados apenas pelos próprios “Pássaros Negros”. Desempenharam as suas funções estratégicas em pleno, fazendo o reconhecimento a milhares de quilómetros quadrados de território hostil, e das 32 unidades feitas, apenas 11 despenharam, mas nenhuma perda foi provocada por acção inimiga.
Mas o custo de operar um SR-71 chegava a ser qualquer coisa como 30 mil dólares por hora, e devido ao facto de todas as ferramentas e moldes terem sido destruídos em 1968 por ordem do então Secretário da Defesa, Robert McNamara, não havia fonte de peças sobressalentes senão outros “Pássaros Negros”. O custo de manutenção era inviável, e o SR-71 foi retirado de serviço activo em 1990. Apesar de regressar brevemente à acção entre 1995 e 1997, as unidades restantes foram finalmente removidas da Força Aérea, existindo agora como propriedade da NASA e alguns museus de aeronáutica.
Alguém pode negar a extrema e estranha beleza desta máquina? Alguém pode duvidar do seu estatuto lendário, afirmado por legiões de apaixonados? Só de pensar que algo idealizado há CINQUENTA ANOS ainda não foi superado é causa para admirar este magnífico gigante de 38 metros ainda mais.
Deixem-me terminar com uma história deliciosa sobre este avião ainda na fase de construção. A grande quantidade de titânio exigida para o fabrico do SR-71 só podia provir da importação do material do estrangeiro. O país exportador? A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Foram os próprios soviéticos a providenciar a matéria-prima que possibilitou a existência do avião que os viria a espiar, de forma diligente e impune, até ao final da Guerra Fria!
Tags: alexander, interessante

