Português Moderno
No curto espaço de tempo de existência deste novo Cafeína, temos tido a contribuição de alguém aparentemente muito preocupado com o nível de correcção dos textos apresentados. Não sei se “H” e “Anónimo” são a mesma pessoa, mas partilho do seu gosto de ver ortografia, sintaxe e gramática devidamente apresentados. Acrescento que os meus contributos não têm estado isento de autênticas bacoradas, mas, nestes anos de escrever artigos publicados em blogs, verifico que, por mais cuidado que se tenha, escapam-nos sempre umas gralhas que nem o corrector ortográfico do browser são capazes de identificar. Por outro lado, fico feliz que os nossos artigos sejam desprovidos de maneirismos de escrita que considero anátema ao bom gosto, bom senso e boa comunicação como “ele dixe k cmg n s paxava nda”, ou puros e simples pontapés no português como “susseção”, “encomondar as peçoas”, e outras jóias do quase-analfabetismo que reinam em mundos como os fóruns de internet relacionados com o futebol. Por isso agradeço os reparos do(a) nosso(a) leitor(a) desconhecido(a), e, aqui no Cafeína, continuaremos a esforçar-nos por fazer deste canto da net um bastião de bom português.
Mas o que é bom português? Decerto este ensaio já vem tarde, visto que a notícia do acordo ortográfico de português já não é novidade, mas sou da opinião que nós no Cafeína devemos opinar sobre esta matéria. Deixem-me só começar o assunto com um pequeno caveat: eu sou absolutamente contra este acordo, tanto pelo seu princípio como pelo seu conteúdo. Há inglês britânico, inglês americano, inglês australiano e por aí fora, mas nem por isso há qualquer acordo ortográfico (antes pelo contrário, houve um esforço inicial dos americanos para distinguir a ortografia americana da britânica) mas a malta continua a entender-se perfeitamente. Aliás, como natural de Londres, sou mais capaz de entender um americano do que alguém de Newcastle.
Não vejo absolutamente nada de proveitoso nesta ideia de por Portugal, Brasil e outros países a escrever da mesma maneira. Quem tira mais vantagem do acordo é a classe jornalística,portuguesa, que fala e escreve português com a mesma destreza que o meu cão executa neurocirurgia. Outro beneficiado é o Brasil, que agora pode impingir as suas publicações aos outros países lusófonos sem serem considerados incorrectos do ponto de vista ortográfico. E daqui a nada estaremos a dizer “concreto” em vez de “betão”, e “trem” em vez de “comboio”. Terei os meus filhos a ligar aos amigos a dizer “Então, cara! Vamos tomar um suco e ver umas garotas? Legal, pego já o ônibus! Papai, cadê o meu passe?” Digo-vos, se o meu rebento se dirigir a mim com estes vocábulos, leva um estaladão, uma bofetada à boa maneira portuguesa (a futura mãe dos meus filhos deve estar a tratar dos papéis de divórcio depois de ler esta frase, mas isto é para ser interpretado de forma figurativa).
Da minha parte, hei-de continuar a escrever português pré-acordo (reparem que escrevi “hei-de” e não “hei de”). Por mim, o nosso povo irmão do outro lado do Atlântico pode continuar a falar como quiser, tem esse direito. No entanto, em Portugal, temos o direito de continuar o nosso caminho linguístico também. É óbvio que as línguas evoluem, já não escrevemos “pharmácia” ou “hum rey portuguez”, mas este acordo está a forçar critérios nada adequados ao contexto da Língua Portuguesa falada em Portugal. Os outros países lusófonos têm outras heranças de povos indígenas, que têm todo o direito e dever de preservar, mas nós também temos uma herança, de raízes greco-romanas, a manter.
Agora antes que digam que isto é um manifesto anti-brasileiro ou um exercício bacoco de patriotismo, quero deixar claro que isso não tem nada a ver. A língua portuguesa não é uniforme nem é normalizada dentro das fronteiras do seu país de origem, apesar de termos regras nesse sentido (se “à séria” é uniforme ou normalizado, digam-me que emigro). Estou aqui a defender a diversidade de expressão, dentro do bom senso, e a repudiar a uniformização forçada e artificial a que se assiste.
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