Passwords
”- Amigo, você vai para casa?”
”- Amigo, não vamos todos para casa?”
Estas são, a acreditar na introdução do mais recente livro de Douglas Coupland, The Gum Thief, uma senha e contra-senha em tempos utilizadas por membros da Maçonaria para se identificarem entre estranhos. Não consigo ainda compreender se serei ingénuo, se serei paranóico - provavelmente estarei em simultâneo no limiar de ambos os estados - mas ultimamente tenho-me apercebido do modo como o espaço alargado do cinema português* parece funcionar num registo de senhas e contra-senhas.
Falo em ‘espaço alargado’ porque é evidente que o ‘cinema português’ é um mundo muito mais vasto do que o conjunto de pessoas que realmente querem fazer ou trabalhar em filmes em Portugal. É que muitas das pessoas que neste país fazem filmes não os querem realmente fazer. Daí as pequenas catástrofes que é possível ver nos festivais de cinema, como por exemplo uma abominação de 25 minutos chamada “Fevereiro”**, de Francisco Botelho, a que alguns dos membros do Cafeína foram sujeitos em Vila do Conde na passada quarta-feira. Acredito sinceramente que há dois tipos de pessoas que fazem filmes em Portugal: as que querem fazer filmes, e as que querem simplesmente Aparecer. Ou seja, ou é pelo Trabalho, ou é pelo Ego. E por muita falta de jeito que haja, por pior que seja o resultado final, há coisas que são simplesmente impossíveis quando estamos nisto pelo Trabalho e existe Gosto no que fazemos. Neste caso, a incompetência era total na fotografia - aquilo a que chamo a “noite portuguesa” merecia um texto por si só -, na montagem, na direcção de actores - sei que a Ana Moreira é uma excelente actriz e até me senti de algum modo envergonhado por estar a ver o filme - e sobretudo no texto e no conceito - como disse o meu amigo Henrique “a apatia está aí, por todo o lado”, não é preciso querer ilustrar isto com uma historieta de alguém que se decide suicidar para fugir à polícia depois de ter roubado um automóvel - acreditem que é verdade.
Mas o que tem isto a ver com a história das senhas e contra-senhas?

