Mos Maiorum*
Em 31 a.C., Caio Júlio César Octaviano, com a ajuda imprescindível do seu hábil general, Agrippa, derrotou o seu colega de triunvirato Marco António e a monarca egípcia, Cleópatra VII, na Batalha de Áccio, pondo fim a uma guerra civil que se arrastara anos. Após 50 anos turbulentos, onde a res publica Romana viu a ascensão e queda de ditadores e triunviratos que subverteram e monopolizaram o poder, aguardava-se um regresso aos dias mais calmos da antiga República. E, para a maioria, foi isso que aparentemente sucedeu. Dois cônsules eram eleitos anualmente, o Senado reunia e decretava concelhos que se transformavam em lei, os barcos de trigo continuavam a atracar em Óstia para alimentar a plebe urbana de Roma, e, o mais importante, pôs-se fim a um ciclo de guerras civis que eclodiam desde o tempo de Mário e Sulla.
Mas havia uma grande diferença nesta nova encarnação do Governo do Império: a existência de um princeps civitas, o principal cidadão, na pessoa de Caio Júlio César Octaviano, que viria pouco depois a ser chamado, por decreto do Senado, Imperator César Augusto, conhecido por nós apenas como Augusto, o primeiro Imperador Romano. Na qualidade de primeiro cidadão, Augusto não dispunha de qualquer poder legislativo extraordinário como se poderia esperar quando pensamos em imperadores, exceptuando um comando fulcral: era chefe da quase totalidade do exército romano. Augusto exercia aquilo que em latim se designa auctoritas, que, apesar da sua semelhança com a palavra “autoridade”, é imbuído de um sentido sem paralelo em português. Exprime dignidade pessoal, carisma, feitos passados, capacidade de comando e mais. Através da sua auctoritas, Augusto tinha apenas de sugerir o que quisesse, e aqueles à sua volta tratavam de por em prática o que quer que isto fosse. “Ah, sabem o que era porreiro? Era aquele tipo ser cônsul.” Pumba, lá o tipo que Augusto propunha para cônsul era magicamente eleito.

