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24.11.2008

Alexander Torres

#34 · 4 coms.

Stinky cat stinks

O programa”Zé Carlos”, ou sei lá como se chama, dos Gato Fedorento, é uma merda. Sim, eu disse-o. Não vale nada. E mesmo as hordes de “fanboys” dos GF, que tentam imitar o R.A.P. para terem piada, que sabem de cor cada sketch que já foi para o ar desde “O Perfeito Anormal”, no seu âmago, sabem-no: estes gajos já tiveram muito mais piada. Ou melhor, já tiveram piada. Pois parece que ter voltado para a SIC lhes fez algum mal aos neurónios, pois foi aí o ponto que estavam decididos a acabar de martelar os metafóricos pregos num caixão para quatro.

Os Gato Fedorento acham-se agora a Contra-Informação do terceiro canal, com críticas mordazes à actualidade política, entremeado com umas bocas na área do futebol ou sociedade, mas em vez de bonecos, têm as teatralidades do Ricardo Araújo Pereira, e tudo rematado com um momento musical absolutamente enfadonho.

Lembro-me de um episódio de “Diz Que É Um Espécie de Magazine” onde limitaram-se a mandar bocas ao Sócrates por não ser engenheiro e pela Ota, e o único momento com piada no programa foi o sketch da senhora que andava à procura do Bolinhas. Mas em contrapartida tínhamos críticas da actualidade com piada como foram as entrevistas a Valentim Loureiro, Joe Berardo ou ao Presidente da Câmara Municipal da Vila Nova da Rabona. Esta nova encarnação, que não passa de uma pálida imitação do formato que criaram para a RTP, nunca teve momentos deste calibre, e a única coisa que realmente merece ser vista, a rúbrica “Tumba!”, nem é propriamente feito por eles.

Antes até havia um sentimento de expectativa pelos domingos à noite, para poder ver Gato Fedorento e discutir e rir sobre o programa no dia seguinte no escritório. Agora prefiro dar uma volta, ou se ficar em casa, ver o Domingo Desportivo do que aturar R.A.P. e Cª.



20.10.2008

Alexander Torres

#24 · Com. ?

Crise Financeiró-Económica do Catano

No 9º ano, andei na turma de Economia. Considero a decisão de o fazer um dos grandes erros da minha vida, embora tenha compensado por ter conhecido aquele que é ainda hoje o meu melhor amigo. Gosto de Economia e das suas disciplinas relacionadas como gosto que me trilhem o escroto. Percebo tanto das dinâmicas de mercado como entendo das doenças capilares que afectaram os mamíferos de menor porte durante o Cenozóico tardio. Logo, tenho exactamente zero competência para largar aqui pensamentos sobre o actual tsunami financeiro que varre as economias mundiais. Mas vou fazê-lo na mesma.

Tenho a ideia do Durão Barroso, ao ser eleito para Primeiro Ministro em 2002, falar vezes sem conta dos Portugueses “terem de apertar o cinto”. Isto porque havia já “crise”. Por isso já estamos em crise neste País há uns 6 ou 7 anos. Se calhar é por isso que não nos parece que a grande tempestade arruinadora de economias tenha tido grande consequência para estas bandas. Já estávamos na merda.

Para estas coisas é costume usar uma espécie de barómetro. Se utilizarmos algo como as reportagens diárias da TVI sobre a Grande Crise Nacional em Exclusivo na Sua TVI como barómetro, rapidamente chegaremos à conclusão que estamos em Crise Grave há anos e que os portugueses estão todos à beira da bancarrota total, pois têm de fazer pão em casa e vão pescar porque não há dinheiro para o cinema. As reportagens não especificam se as famílias portuguesas estão mal porque: a) ganham pouco b) as coisas estão caras ou c) esmifram o dinheiro em coisas ridículas em tempo de vacas gordas e estão endividados até às orelhas porque estão a pagar um empréstimo que tiraram para pagar um empréstimo que tiraram porque a Crise estava a limitar as compras de Natal de há uns anos atrás.

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16.10.2008

Alexander Torres

#22 · 4 coms.

As figurinhas que fazemos

Só Deus sabe as figurinhas ridículas que já fiz em prol de impressionar os membros do sexo oposto. Desde me gabar de conduzir um espectacular Citroën BX preto de 1991 a bater coro sobre o que faço, como sou… bem, tudo. Mas este sentimento agudo de puro embaraço é atenuado pelo facto de não estar sozinho nesta busca de espalhar material genético. É Universal. É Intemporal. É-nos natural desde que vivíamos em cavernas. Mas fomos substituindo as mocadas e o arrastar pelos cabelos por outras artimanhas, quiça, mais sofisticadas, mas, paradoxalmente, igualmente primitivas.

O interesse pelo acto reprodutivo é incontornável. Se 90% da net é pornada, se cremes para aumentar o tamanho do pénis representam a quase totalidade de spam apanhado no filtro do e-mail, se grandes planos das tetas da Soraia Chaves correspondem à obra de cinema luso mais visto em Portugal, podemos tirar a conclusão que a malta pensa em pouco mais do que isso.

Mas regressemos aos artifícios de engate que nos fazem parecer uns totós. Talvez o tipo de fauna que mais tempo dedica a esta actividade é o animal de discoteca. Eis um ser com a testosterona à flor da pele. Está em pulgas para provar que é o Macho Alfa, e infligirá uma carga de porrada a qualquer outro macho que o desafie, isto é, que olhe na sua direcção durante mais de dois segundos. Com uma camisa justa a realçar o seu maço de tabaco no bolso de frente, esta indumentária permite que as fêmeas apreciem a camada de banha suada que envolve o seu ser, ou, como dirá o próprio, o “cabedal”. Tem ao seu dispor armas letais, como apalpadelas durante as luzes estroboscópicas ou sussurros ao ouvido de “comia-te essa c*na toda”.

Mas não são só os homens a fazerem se passar por bestas, pois as mulheres também conseguem ser boas nisso. Procuram disfarçar todos e quaisquer ditos defeitos físicos, e de qualquer feitio e forma, desde wonderbras a maquilhagem exagerada. Vale tudo para garantir que tenham alguém entre as pernas a dar-lhes com ele. Neste circo de vaidades e enganos, há o expoente máximo que é o aspecto absolutamente atroz das tias mal-acostumadas ao avançar dos anos. Estas senhoras viviam e vivem das aparências, mas ter o impacto visual de uma azeitona ressequida com uma cabeleira loira não lhes parece causar mossa.

Agora vamos para o lado oposto do espectro social. Pintem uma imagem mental de um guna. Brinco na orelha, boné da “Naike” mal-pousado em cima de uma cabeça semi-rapada, kispo multi-color, calças esburacadas da moda rematadas por umas sapatilhas de valor superior a o que o dito guna ganha num mês de trabalho. E pintem a imagem mental do seu acessório mais fundamental na sua busca pela produção de mini-gunas: um Seat Ibiza, repleto de saias laterais, ailleron (ou “érlon”, como dirá o próprio, “pra cortar o bento às fatias”), sub-woofer nas alturas e jantes gigantes tão polidas que o dono consegue usá-las para se olhar enquanto aplica uma camada de gel à curta cabeleira. Fará uma figura ridícula? Sim. Mas estas não são afirmações de fashion, não senhor. Não são apetrechos culturais nem tomadas de posição face a uma sociedade injusta. Estas são todas artimanhas para o Quim Tó conseguir enganar fêmeas o tempo suficiente para lhes passar as suas doenças venéreas.

“Ah! Ah! Ah!” rirão vocês. Não se riam, isto afecta a todos. Somos todos capazes de usar um casaco absolutamente patético se ouvirmos uma miúda gira a dizer que “até é um casaco fixe.” Venderemos a alma para sermos convidados a uma festa porque tem “gaijas bouas”. Agiremos como cães no cio quando o tempo está quente e as mulheres andam a exibir grandes quantidades de pele. A dignidade nada vale perante a possibilidade de molhar o pincel.



15.09.2008

Alexander Torres

#18 · Com. ?

Um Rio de merda

Gostava de perguntar àqueles que, como eu, vivem na cidade do Porto, que grandes mudanças sentiram desde que o PSD tomou posse da Câmara Municipal? Que grandes obras da responsabilidade do executivo de Rui Rio tivemos na cidade (fora terminar aquela grandiosa obra, o viaduto da Prelada)? Que grandes eventos culturais houve na cidade que tiveram a mão da Câmara por trás (descontando aquele bastião de cultura, Filipe La Féria’s Jesus Christ, Superstar)? Quanto a coisas que Rio prometeu, já temos menos arrumadores nas ruas? E o grande estandarte desta Câmara, a reabilitação urbana, alguém já sentiu os seus efeitos? “Alto!” gritarão os defensores do Presidente de Câmara da segunda maior cidade do país. “O Porto voltou a ter um circuito de corridas automóveis!” Pois, e o resto da cidade estagnou.

Olhando a partir de, digamos, 2003, das maiores surpresas que se poderia esperar era Rui Rio voltar a ser eleito nas eleições seguintes. Mas o PS parece que se estava a borrifar se a Câmara do Porto é deles ou não (e aparenta continuar a ser o caso), e Rui Rio foi reeleito sem um adversário à altura. Tanto desta como da primeira vez, foi das piores coisas que alguma vez aconteceu à cidade do Porto.

Uma das vertentes da gestão do anterior executivo (que pode não ter sido brilhante, mas era bem melhor que a actual) era voltar a unir a parte oriental do Porto com o resto da cidade. Devido à linha de ferro, tudo que que havia para lá do canal do comboio (e muita coisa do lado de cá também) foi fisicamente cortado do resto da cidade do Porto. Só havia quatro passagens para o lado oriental (a marginal, o Freixo, Rua de S. Roque e depois só na Circunvalação junto a Rio Tinto). Chegou-se a acreditar que zonas como Campanhã, Contumil e S.

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26.08.2008

Alexander Torres

#17 · 2 coms.

Bon voyage!

Tive a ideia de fazer férias a andar de carro à volta da Europa, mas a sorte nada quis comigo. Os hotéis estavam todos cheios, salvo os que cobram os proverbiais olhos da cara, por isso tivemos de dormir no carro, no meio de temperaturas tropicais e chuva intensa. Não havia GPL nas estações de serviço, que estavam infestados por hordes de ciganos em trânsito migratório, todos a irem para uma fête religieuse ali para Narbonne. Ninguém nos servia café à noite, porque pensavam que éramos ciganos em trânsito migratório, mas o que esperavam depois de passar a noite num carro quente e suado? Que se lixe a grande viagem, que se f*da ver os Alpes de perto, vamos mas é para casa.

Mas ainda tirei uma ou duas ilações:

1. Andorra. Já não ia lá há dez anos, e nem reconheci o lugar. Andorra é uma Las Vegas europeia, mas em vez de casinos, têm centros comerciais. As slot-machines deram lugar a infindáveis postos de venda de tabaco, e em vez de strippers, temos tugas radicados com um catalão ainda mais arranhado que o meu portunhol.

2. Encontrar um espanhol que sabe falar baixinho em público é como encontrar um Yeti na cama com o Pai Natal e a Fada dos Dentes: não vai acontecer.

3. Há quem diga que certas localidades são apenas duas ruas. Andorra não passa de uma rua, uma nacional tortuosa de altos e baixos onde os andorrenhos transitam a velocidades doidas (por influência tuga ou pela gasolina ser tão barata ou os dois factores combinados).

4. Carcassonne é como produtos da Apple: bonito, bem apresentado, mas exageradamente caro, e só depois é que se vê que a concorrência também é boa.

5. Tentar falar o nosso melhor francês para comunicar com franceses é um erro. Eles são como os italianos e espanhóis, gostam de corrigir cada pequeno erro de pronúncia e até parecem ofendidos por não falarmos gaulês perfeito. Mas se disser: Je sweez onglay ay je shersh an restaurant, seal voo play, pas de probleme! “Oh, you are engleesh! I will spik ze english far yoo!”

6. Atravessar a Espanha de carro é duro, e às vezes precisamos de ajuda. Existe à venda nas bombas espanholas uma chiclete chamada Despierta-T!, que se gaba que duas pastilhas equivalem a uma chávena de café. Não sei se é verdade, mas pelo menos garanto que sabe a detergente.

7. Os franceses amam queijo da mesma maneira que odeiam ingleses. Logo, se um inglês lhes disser que também há muitos queijos em Inglaterra, eles levam um bocado a peito.

8. A probabilidade de preferirmos fingir que somos do Burundi em vez de assumirmos sermos oriundos de Portugal, porque os poucos tugas que vemos à solta no estrangeiro são tão parolos e malcriados, é muito alta.

9. Em França, uma tosta mista (croque monsieur) custa mais do que um hamburger (€5 ou €6).

10. As minhas tripas são estranhas. Fiquei com o intestino mais preso do que o Vale e Azevedo depois de gerir o Benfica, mas só quando eu estava do lado de lá do meridiano de Greenwich. Mal atravessei a fronteira e parei na Guarda, o teor do meu intestino fluiu para dentro da retrete como os habitantes de Rio Tinto e Gaia fluem para dentro do Coliseu em dia de concerto do Tony Carreira.



03.08.2008

Alexander Torres

#14 · 1 com.

Desenrascate yourself

Durante as aulas de Filosofia do 10º ano, a nossa professora demonstrava um modo de emprego de lenços de papel que nós, miúdos imberbes de 15 aninhos de idade, nunca tínhamos visto. Enrolava o lenço num espécie de cone, e então utilizava esse mesmo cone para proceder à limpeza das fossas nasais. Apesar de ser deveras elucidativo, não acrescentava muito à aprendizagem da Filosofia, nem ajudava muito em termos do respeito que miúdos imberbes têm por sua professora de Filosofia.
Poder-se-á chamar esta habilidade de “desenrascanço”, essa qualidade intangível tão tuga que até deu polémica no artigo homónimo do Wikipedia, entretanto desaparecido. A dita docente de Filosofia engenhosamente transformou uns centímetros quadrados de papel numa ferramenta de precisão para desentupir narinas. O português típico, aquele de bigode, indumentária imunda e executor de uma nobre profissão como Taxista ou Trolha ou Aquele Que Usufrui Do Rendimento Mínimo Porque Não Quer Fazer Um Car*lho, sabe desenrascar a rua como recipiente para as suas pontas de cigarro, papéis de lotaria sem valor e escarradelas. O condutor pimba desencanta sempre uma rampa, um passeio, uma linha amarela ou cria uma nova faixa para estacionar. O empresário é perito uma nova via de fuga ao fisco. O drogado habilmente encontra um cantinho numas ruínas ou casas desocupadas para chutar para a veia. Que povo cheios de recursos que somos! Como gostaria que esta habilidade fosse empregue para mais do que, sei lá, forrar um cone de papel com ranhetas. Éramos reis do mundo!
E agora chega, pois nas palavras sábias do conhecidíssimo filósofo grego, Eduardos de Sousos, já estou a encher chouriços.


17.07.2008

Alexander Torres

#12 · Com. ?

Marados dos cornos

“Pelas barbas inexistentes de Antíoco IV Epífânio!” exclamarão os leitores. “Três dias e nem um único novo artigo do Cafeína para agradar às hostes de fiéis seguidores?!” Pois dou-vos um novo post, escrito ao longo dos últimos dias, às prestações, feito enquanto aguardo que o AutoCAD negoceie a alocação de recursos com o CPU. Ao menos tento escrever alguma coisa, ao contrário de certos filósofos ininteligíveis que não só não escrevem como se queixam sobre a alta sofisticação temática de quem escreve (sim, isso foi uma boca). Portanto vou baixar a fasquia, e veremos o que sai.

Desta vez vou tripar com os malucos. Na boa tradição cafeinesca, que se f**a o politicamente correcto e vamos dar na cabeça aos doidos varridos que nos assolam o quotidiano. Começaremos com os mais calmos e progrediremos até aos mais perigosos.

Há os tolinhos inofensivos que nos falam sem mais nem menos, deixando-nos sem resposta e sem saber se devemos rir e ir embora, e sentirmo-nos uns cabrões por sermos tão intolerantes de quem tem uma doença, ou se metemos conversa e aí corremos o risco de termos o doido à perna por muito tempo.

Existem os chanfrados que exibem sinais menos evidentes, mas quando mostram os sinais, catano, não há margem para dúvidas. Há uns anos queria subir à Torre dos Clérigos, que estava em obras, e o tipo que estava a vender bilhetes disse qualquer coisa como “Ora, acontece que, de momento, a Torre está em obras, sendo que é impossível visitar a Torre, pois as obras não permitem visitas, portanto, se vier e já não houver obras, já poderá subir, mas, sendo o caso de que realmente está a haver obras, não serão possíveis visitas até futura data após o término das obras, aí sim, será possível realizar visitas à Torre, mas até lá, não será possível, pois está interdito por motivo de obras, blá-blá-blá blá-blá-blá blá-blá-blá(…)”

Temos os pedintes, uma estirpe de malucos mais agressivos, como a Deolindinha que anda pela Baixa portuense, faz anos todos os dias (já deve ter uns 2000 anos) e é orfã (aos 2000 anos, ou aos 40 e tal, como quiserem). A Deolindinha é capaz de engendrar os insultos mais criativos, do tipo que fazem marinheiros corar, se nos recusarmos a “dar uma moedinha”. Depois temos o maluquinho de cabelo branco e cabeça deformada que também anda pela Baixa. No Euro 2004, pedia timidamente se “empresta um euro para uma sopa”. Agora já nada teme e pede logo dois euros, como fazem os pedintes lisboetas, a alto e bom som. Existe o doido da zona do Marquês/Costa Cabral, que anda sozinho pela rua, mas a mandar vir com pessoas invisíveis. E se alguém se meter no caminho, é abalroado.

E por fim, os chanfrados doidos malucos sociopatas, mas, por alguma razão para mim insondável, socialmente aceites, como taxistas e estafetas, empregados de mesa beligerantes, condutores de Seats e Audis, políticos e comentadores televisivos. São estes psicopatas infelizes que mais gostaríamos de ver num colete de forças a espumarem dos cantos da boca enquanto lhes é administrado terapia de choques eléctricos.



13.07.2008

Alexander Torres

#11 · 3 coms.

Os Três Grandes

“Catano!” dirão os leitores. “Nem um mês de Cafeína renovado, e já estão a falar desse desporto de neandertais que é o futebol!” Mas não. Este título não faz referência ao trio de clubes que dominam o panorama futebolístico nacional. O assunto hoje é algo por qual nutro grande paixão, mas que os (pouquíssimos) leitores do meu outro blog devem estar fartos até aos cabelos. Lamento. Continuo a sonhar que poderei um dia fazer um artigo que todos apreciem ler. O assunto? Carros. Os três grandes? Audi, BMW e Mercedes, os três maiores fabricantes de carros de luxo, que também são alemães.

“Mas porque carga e recarga de água está este gajo a falar disto?” perguntarão. Eu digo. Saiam à rua. Dêem uma volta ao quarteirão, e contem quantos veículos destas marcas vêem estacionados ou a circular. Estas são marcas de luxo, logo, devem ser carros caros. Mas as estradas portuguesas estão verdadeiramente inundadas por estes automóveis, o que é de indagar como é possível, visto que ao ver o telejornal só ouvimos falar em “crise económica” , “crise no sector” e outras frases-feitas jornalísticas que dão ideia que o país está à beira da hecatombe socio-económica. E eu não duvido que Portugal esteja numa situação complicada, o que me surpreende é que o mercado automóvel está de vento em popa. Vendem-se carros novos que é uma coisa doida, e são cada vez mais os importados em segunda mão a circular. Só isto já é digno de um artigo em si, mas hoje vou concentrar-me noutra coisa.

Há uma preponderância da malta comprar carros alemães, dos tais “três grandes” (a Volkswagen é alemã, mas não é marca de luxo, por isso não a incluo). Se perguntarem a razão da escolha, os donos dirão “duram muito” ou “são bem construídos”, mas não dirão que a verdadeira razão, que eles possam saber consciente ou inconscientemente, é o status que dá.

“Qual é o teu carro?” pergunta o grunho ao azeiteiro. “Ah, é um Bê-Eme!” responde este, com um sorrisinho enquanto enche o peito. A verdade é que nos encontros de homens de pelo no peito, gel no cabelo e ouro no dedo, não dá um ar de importante responder que conduz um Clio quando se pode dizer que se tem um classe C. E quem conduz um Audi está claramente a dizer “Eu sou rico e desprovido de bom-gosto o suficiente para ter comprado isto em vez de um Seat para fazer as minhas estupidezas na estrada.”

Digo-o com toda a lógica e razão do meu lado: quem tem um destes carros é um guna endinheirado ou pimba ou azeiteiro ou novo rico, ou pior, taxista. Compraram-no para dar pasta e provar uma masculinidade mal-confirmada, para dar nas vistas, para exibir um status social que não têm.



10.07.2008

Alexander Torres

#9 · 1 com.

Português Moderno

No curto espaço de tempo de existência deste novo Cafeína, temos tido a contribuição de alguém aparentemente muito preocupado com o nível de correcção dos textos apresentados. Não sei se “H” e “Anónimo” são a mesma pessoa, mas partilho do seu gosto de ver ortografia, sintaxe e gramática devidamente apresentados. Acrescento que os meus contributos não têm estado isento de autênticas bacoradas, mas, nestes anos de escrever artigos publicados em blogs, verifico que, por mais cuidado que se tenha, escapam-nos sempre umas gralhas que nem o corrector ortográfico do browser são capazes de identificar. Por outro lado, fico feliz que os nossos artigos sejam desprovidos de maneirismos de escrita que considero anátema ao bom gosto, bom senso e boa comunicação como “ele dixe k cmg n s paxava nda”, ou puros e simples pontapés no português como “susseção”, “encomondar as peçoas”, e outras jóias do quase-analfabetismo que reinam em mundos como os fóruns de internet relacionados com o futebol. Por isso agradeço os reparos do(a) nosso(a) leitor(a) desconhecido(a), e, aqui no Cafeína, continuaremos a esforçar-nos por fazer deste canto da net um bastião de bom português.

Mas o que é bom português? Decerto este ensaio já vem tarde, visto que a notícia do acordo ortográfico de português já não é novidade, mas sou da opinião que nós no Cafeína devemos opinar sobre esta matéria. Deixem-me só começar o assunto com um pequeno caveat: eu sou absolutamente contra este acordo, tanto pelo seu princípio como pelo seu conteúdo. Há inglês britânico, inglês americano, inglês australiano e por aí fora, mas nem por isso há qualquer acordo ortográfico (antes pelo contrário, houve um esforço inicial dos americanos para distinguir a ortografia americana da britânica) mas a malta continua a entender-se perfeitamente. Aliás, como natural de Londres, sou mais capaz de entender um americano do que alguém de Newcastle.

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09.07.2008

Alexander Torres

#8 · 9 coms.

Mos Maiorum*

Em 31 a.C., Caio Júlio César Octaviano, com a ajuda imprescindível do seu hábil general, Agrippa, derrotou o seu colega de triunvirato Marco António e a monarca egípcia, Cleópatra VII, na Batalha de Áccio, pondo fim a uma guerra civil que se arrastara anos. Após 50 anos turbulentos, onde a res publica Romana viu a ascensão e queda de ditadores e triunviratos que subverteram e monopolizaram o poder, aguardava-se um regresso aos dias mais calmos da antiga República. E, para a maioria, foi isso que aparentemente sucedeu. Dois cônsules eram eleitos anualmente, o Senado reunia e decretava concelhos que se transformavam em lei, os barcos de trigo continuavam a atracar em Óstia para alimentar a plebe urbana de Roma, e, o mais importante, pôs-se fim a um ciclo de guerras civis que eclodiam desde o tempo de Mário e Sulla.

Mas havia uma grande diferença nesta nova encarnação do Governo do Império: a existência de um princeps civitas, o principal cidadão, na pessoa de Caio Júlio César Octaviano, que viria pouco depois a ser chamado, por decreto do Senado, Imperator César Augusto, conhecido por nós apenas como Augusto, o primeiro Imperador Romano. Na qualidade de primeiro cidadão, Augusto não dispunha de qualquer poder legislativo extraordinário como se poderia esperar quando pensamos em imperadores, exceptuando um comando fulcral: era chefe da quase totalidade do exército romano. Augusto exercia aquilo que em latim se designa auctoritas, que, apesar da sua semelhança com a palavra “autoridade”, é imbuído de um sentido sem paralelo em português. Exprime dignidade pessoal, carisma, feitos passados, capacidade de comando e mais. Através da sua auctoritas, Augusto tinha apenas de sugerir o que quisesse, e aqueles à sua volta tratavam de por em prática o que quer que isto fosse. “Ah, sabem o que era porreiro? Era aquele tipo ser cônsul.” Pumba, lá o tipo que Augusto propunha para cônsul era magicamente eleito.

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