05.10.2002

NiceGuyEddieEduardo Morais

# 474

"Não sejas burro!" Quantas, quantas vezes é que esta frase não nos ecoa na cabeça? Seja quando estamos a considerar pagar um café a um amigo, seja quando pagamos os impostos, seja quando estamos a tratar das partilhas relativamente à herança de um parente próximo (onde há sempre - sempre - uma cunhada que é a encarnação de Satanás), há que ter em conta os ensinamentos que os bons dos nossos pais e a boa da sociedade portuguesa sempre nos deram, desde que nascemos: "Não sejas burro!"

Porém, quem não se quer burro também se quer sério. Em Portugal há milhões de pessoas sérias. Há contudo alguns priveligiados. Acima dos sérios há aqueles que fazem parte da classe política, futebolística, empresarial. São ministros, deputados, bastonários e autarcas. São pessoas seríssimas, que conseguem a proeza, digno de uma anedota de cúmulos, de atingirem o superlativo da verdade, pois se um sério é por definição aquele que diz a verdade, o que é um homem seríssimo? Há portanto em Portugal, e no resto do Mundo (George W. Bush consegue mesmo ser superseríssimo), uma grande maioria séria e duas minorias: a seríssima e a honesta.

As pessoas honestas são também conhecidas como anjinhos ou anjolas. São aquelas que se deixaram ser burras. São o total descalabro. Uma família terá orgulho nos seus filhos sérios e sobretudo nos seríssimos, mas um filho honesto é uma fonte de problemas. É a ovelha negra. Se a família for da Província, um filho honesto é também muito provavelmente comunista.

Mas quais as diferenças? É que as pessoas sérias são dotadas de algo que as honestas nunca têm - ou pretendem vir a ter: o bom-nome. Se uma pessoa séria tem uma pequena quantidade, cuidadosamente mantida, de bom-nome, um homem seríssimo tem bom-nome para dar e vender: É o latifundiário do bom-nome, que protege a sua propriedade a todo o custo da calúnia. Demonstrar ter uma grande quantidade de bom-nome significa que se está enterrado até ao pescoço em algo, que deverá ser concerteza apenas e só a seriedade.

Antigamente havia a cunha, que sugere uma peça triangular que é empurrada com um martelo e que serve para desencravar - ou desenrascar - algo. Contudo, nesta era da seriedade e do bom-nome o método arcaico da cunha desapareceu. Na era do telemóvel liga-se a um amigo que nos desenrasca. A cunha era um acto vil, mas ninguém poderá por em causa um simples favor a um amigo, uma pessoa seríssima que da última vez que vi me ofereceu uma garrafa de Scotch.

Contudo, é inexplicável que com tamanha abundância de homens sérios, os nossos pais (os mesmos que nos dizem para não sermos burros) nos falem constantemente na escassez de grandes homens como os de Antigamente. Um grande homem, segundo parece, conseguia a proeza absolutamente notável de ser seríssimo e honesto ao mesmo tempo, embora eu julgue antes que a morte de um homem sério confere-lhe o milagre da súbita honestidade. Que futuro glorioso espera portanto os homens seríssimos do presente.

Arquivos >>






Entre Agosto de 2000 e o seu encerramento em Julho de 2005 o Cafeína foi um dos mais populares weblogs portugueses.

Podes consultar todos os artigos aqui colocados durante essa época. Consulta também o Volume 2 (2008-2009).

Por data:

Por membro do staff:




Uma produção Eduardo Morais / Asseptic.org
Todos os artigos são da inteira responsabilidade dos respectivos autores.
© 2000 - 2009