Um estádio cheio de coisas improváveis
Pensem em coisas extremamente improváveis de acontecer. Digamos, algo com uma probabilidade de um em um milhão de acontecer na próxima hora. Tipo encontrar uma nota de 200€ na rua, ou de levar com um vaso na cabeça. Ora, então isto quer dizer que na próxima hora haverão dez felizes contemplados em Portugal, e 6000 felizes contemplados no mundo. Durante as próximas 24 horas, existirão 144000 contemplados no mundo - isto é, os Estádios da Luz, Alvalade e Dragão cheios de gente a quem aconteceu a mesma coisinha específica cuja probabilidade era de um num milhão. Pensando bem, a hipótese de encontrar 200€ na rua talvez seja de um em um bilião. E espero bem que a de levar com objectos em queda também ande por esses lados.
É um exercício interessante pensar um pouco nas probabilidades. Tanto milagre desmistificado. Mas dá para ver que a esmagadora maioria das pessoas não pensa. Em vez disso acreditam na Sorte, uma misteriosa aura verde presente em certos sítios, em que ao que parece foi usado o spray de Piço que dizem estar à venda no Mundo Místico. Senão como podemos compreender os cafés e agências da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa que colocam cartazes fazendo alarido dos bilhetes da lotaria premiados que aí venderam? Alguém que compreenda que a probabilidade de algo acontecer duas vezes seguidas no mesmo sítio é menor apenas pode fazer um entendimento desta publicidade: fugir a sete pés.
No livro Feiticeiros e Cientistas o autor Henri Broch (que ainda tenta compreender a probabilidade de ter sido baptizado assim) refere um exemplo curioso: num qualquer 'talk-show' fatela em França, um homem apresentando-se como médium anunciou de forma solene, com uns 'abracadabras' pelo meio, que iria estoirar com as lâmpadas da sala de toda uma série de teleespectadores. Dali a momentos, começaram a chover os telefonemas, espectadores emocionados que testemunhavam o milagre e os poderes do médium. Henri Brosch demontra então através de simples matemática que, tendo em conta o tempo de vida de uma lâmpada e a audiência média do programa (em França), várias centenas de pessoas terão sido felizes contempladas com esse milagre. E entre centenas de espectadores de telelixo há sempre meia-dúzia disposta a telefonar (ou a enviar um SMS para o rodapé) e a dar o seu testemunho emocionado.
Vejam-se os milagres das aparições de Cristo em manchas de humidade na parede. Quantos milhões de manchas de humidade existem nessas paredes pelo mundo fora? Durante a última semana, vi em diversas manchas de humidade o gato Sylvester, a mama da Janet Jackson e o Liedson a representar Hamlet (com o Beto Acosta no papel do fantasma). Mas basta que alguém com a inclinação certa imagine a Virgem Maria e está o caldo entornado! Os crentes acorrem ao local, e esperando ver uma aparição, vêm-na realmente, quando a Gestalt suprime a impressão inicial dos poucos desconfiados de que a mancha tinha bigode.
Curiosamente existe um local onde o entendimento das probabilidades é lúcido: é do senso comum nos casinos esperar pelas máquinas que não dão prémios há mais tempo. Mas é precisamente nos casinos que as regras das probabilidades não se aplicam, devido à acção de misteriosas forças físicas. Andamos todos trocados.

