Morte ao Príncipe Encantado
Já é tarde. Três finos na mesa. Três gajos conversam descontraídamente. Subitamente, entra no bar uma mulher bonita que interrompe essa conversa, e talvez outras conversas noutras mesas. Mas logo atrás, estendido como uma trela, o braço de um azeiteiro de t-shirt justa, fio de ouro, cabelo bem puxado para trás com gel, e uma fronha que não engana ninguém - um violento com que não nos queremos cruzar na rua. Fala-se então de outra coisa, já não do passaporte falso do Mantorras, mas sim da hipocrisia inata às mulheres, que falam de umas coisas bonitas - sentimentos, homens sensíveis - mas acabam invariavelmente por se comprometer com broncos da pior espécie. Eu descobri o culpado deste fenómeno: é o cabrão do Príncipe Encantado.
Infelizmente para mim, já ouvi a história do "Não é engraçado? Eu e o Fulano não temos mesmo nada a ver..." demasiadas vezes na vida. Esta traição que as mulheres fazem aos seus ideais masculinos é certamente uma regra inevitável e não uma excepção. É tiro e queda: podem ser as mulheres mais cultas e mais selectivas, mal apareça um bronco qualquer armado em Cavaleiro de armadura prateada (Mercedes, BMW, etc) com umas ténues promessas de uma vida de lazer (felizes para sempre logo se vê), mesmo que o gajo tenha as palavras 'violência doméstica' tatuadas na testa elas ficam possuídas pela programação a que foram sujeitas, vendo no putativo azeiteiro os símbolos de um Homem Bom que trazem da infância - seja o boi do Príncipe, o cabrão do Cavaleiro ou o filho da puta do Ken que, pensam, lhes vai trazer todos os brinquedos da Barbie à escala 1:1.
É óbvio que isto não funciona. Anos mais tarde este Ken é daqueles que espanca a esposa com toalhas húmidas para não deixar marca, para que não pareça tão mal naquele restaurante onde costumam ir todos os Sábados, reconhecidos pelos três gajos que mais tarde foram ao bar como "aquele casal de zombies". E por mais trágicos que sejam estes fenómenos, por maior sofrimento que isto cause às mulheres, existe sempre da parte dos espectadores uma sensação de alguma justiça, a pena a ser cumprida por essa traição de princípios, essa submissão fútil a mitos infantis...
Tal como o amor é, nas palavras de Miguel Esteves Cardoso, fodido, também o é o poder. Ou seja, amor e poder não são uma boa combinação. Como se o cenário aqui traçado não fosse suficientemente negro, existe ainda o facto de que numa relação assimétrica (por exemplo, entre uma filósofa e um picheleiro) o poder é exercido pela pessoa que se sente inferior, com efeitos desastrosos. Quantas grandes mentes não se terão perdido em relações medíocres, incapazes de recuperar depois da inevitável ruptura? E é tão simples de entender isto - o picheleiro irá sempre ter inveja e ciúme dos amigos da filósofa, com os quais ela fala uma linguagem que ele não entende, levando-o a impedi-la de estar com esses amigos, exercendo assim poder. A filósofa pode sonhar em fazer o picheleiro tornar-se filósofo, mas isso não acontece - o complexo de inferioridade do picheleiro funciona sempre de forma destrutiva. Ou seja, no final é a filósofa que sai prejudicada, objecto constante de poder, de posse, simbolizado muito bem pelo braço que a segura na presença dos amigos filósofos, não vá ela fugir para junto dos seus.
Não há poder entre iguais. Não há um elemento mais fraco a tentar dominar o mais forte. Não é de admirar que as relações mais estáveis sejam entre pessoas que podem cooperar. Casais de advogados, de médicos, de professores, artistas, ou artistas e cientistas com interesses recíprocos. A burocrata e o arquitecto - não. O fiscal e a pintora - não. É óbvio que há lugar para excepções - pessoas com capacidade de se interessarem pelos gostos da parceira ou de a apoiar nas suas actividades - mas regra geral as assimetrias, quando visíveis aos olhos exteriores, são o ponto de partida para o veneno dos jogos de dominância.
Portanto abaixo a Barbie! Urge decapitar o Ken, e pôr as miudinhas a ver o Shrek 2 (filme que tem o mérito de pintar o Príncipe Encantado como vilão)! É necessário fazer de certos filmes do Woody Allen parte integrante do programa da escola primária! Em suma, é preciso parar a lavagem cerebral, essa programação do subconsciente, feita para colocar a aristocracia em vantagem! Sim, Príncipes Encantados, Cavaleiros de Armadura, o Ken! Betos belicistas, aristocratas! Tentando matar dois coelhos de uma só vez: ficar com as mulheres mais belas no seu mapa genético enquanto destroem grandes mentes que poderiam ameaçar a ordem patriarcal. Adicione-se uma dose de engenharia genética, e concretizar-se-à o grande sonho de muito fascista: a separação efectiva de duas raças humanas, o homo sapiens rex, rico, poderoso e belo (graças ao material genético adquirido); e o homo sapiens servilis, pobre e Neanderthal.
E tudo culpa do cabrão do Príncipe Encantado.

