Mix-tapes.
Esta condição bi-polar/maniaco-depressiva em que me encontro alimenta cafés com aquele que padece da mesma condição, e da junção de dois corações partidos e almas vazias saem coisas tão maravilhosas como dantescas. Uma destas noites naquela mesa daquele bar daqueles loosers divagamos acerca das mix-tapes:
• A mix-tape como veículo de comunicação, barómetro de compatibilidade emocional e intelectual, o preludio de qualquer coisa ou a linha que separa o interesse a longo prazo do desprezo a curto-médio prazo.
• A mix-tape como tributo á condição humana, num certo contexto socio-cultural. (EMOCIONAL, PORRA!!!)
E daí surgiu a ideia (imposta por factores externos, tais como musica ambiente em bares de loosers ás 2 da manhã depois de filmes cujo dedo de Deus aponta na tua direcção ao mesmo tempo que ouves lá no fundo “Sim, TEMOS de falar…”) de fazer uma mixtape com o tema Bater Maleiro.
Depois de uma manhã em que acordo e penso “foda-se, mais um dia….”, depois de uma tarde a ouvir The Smiths (a bater maleiro), com a cabeça pousada na secretaria á espera que algo acontecesse e quando algo acontecia (e.g. telemovel a tocar) sair um gemido “não…..” rolando a cabeça para o lado oposto, e depois de uma outra tarde a medir sofás no shopping da mobília d.i.y. enquanto imaginava o fenómeno de explos-ão humana espontânea em casais de namorados, dou o braço a torcer e farei mesmo uma mix-tape! Desta não para oferecer a alguém, mas para partilhar com uma caixa de uma benzodiazepina qualquer e com os amigos (os que padecem da mesma condição, os que disfarçam muito bem e os que mais tarde ou mais cedo vão precisar dela) e as famosas 6 garrafas de Tinto e a tal Absolut que jurei nunca abrir até ontem á noite, intitulada Bater Maleiro ou Como Chegar ao Equilibrio Zen De Cortar Os Pulsos E Esfrega-los Com Limão Com Uma Certa Graciosidade.
E assim por alto, mas mesmo por alto, que dentro de 30 minutos miraculosamente transformar-me-ei naquela miúda “tão-bonita-tão-inteligente-tão-interessante-e-cativante/tive-saudades-tuas/adoro-te/és-a-minha-diva-e-se-não-fosse-gay(!!!)-era-contigo-que-eu-queria-ficar-mas-mesmo-assim-és-a-mulher-da-minha-vida(?!)/não-acredito-que-não-tenhas-namorado/fazias-um-belo-par-com-X/conheço-alguém-perfeito-para-ti”, lanço cerca de uma dúzia de nomes para o ar:
• The Smiths - Pega lume a recadinhos, apontamentozinhos e facturinhas (de coisinhas divididas) no geral (enfim, todo e qualquer escrito que um dia teve algum tipo de carga emocional e por isso desceu á categoria das coisas acabadas em -inho/-inha) e poloroids (dá um efeito espectacular, cheio de “chispas”) e rasga fotografias (ao meio, em quatro, com bisturi, corta membros ou faz origamis de morcegos), finaliza com a dança da Heidi Klum no anuncio do Guitar quelque-chose.
• Beirut- Vamos fazer uma festa que vêem aí os panzers!! Brinda com champagne barato de forma a que os copos se partam e façam muitos estilhaços (aproveita os cacos que não tiveram pontas rombas para usar umas musicas á frente). Dança minha/meu querida/o dança (descalçada/o, para aproveitar o pó de cristal que ainda corta)…., com a almofada, ou com o cão, ou com o gato, ou com um holograma que o teu dealer (oficial ou não) te patrocinou depois do jantar. Atira-te de costas para a cama (só aplicavel a quem tiver edredons de penas para fazer aquele pufff…) e depois de tares enterrada/o tenta abafar-te com duas almofadas (de penas uma vez mais, se não abafares ainda vomitas esperança)
• New Order - Dança que estás na merda e provavelmente ninguém te vai tirar dela! Com muita sorte nasceste cedo (ou tarde) o suficiente para te lembrares da queda do muro de Berlim e por isso tens todo o direito de reclamar o estatuto “urbano-depressivo”, justificativa mais que suficiente para te encostares á parede e escorregar por ela abaixo no final (Quem manda meter com alguém que já tem dono?!). Fica na posição ridícula o tempo suficiente para sentires os dedos dos pés dormentes e caimbras nos gemeos, para poderes rastejar até á porta a arranhar o soalho (Mas afinal de contas onde pensas que vais?! Ainda não acabou….).
• The Cure - Só estás a colher o que semeaste e o melhor que fazes é mandar uma tal benzodiazepina e mamar minis de moet et chandon a ler o dicionário de francês. Ilude-te o suficiente em relação ao desenlace da história, intercalando entre o “ele/a perdoa-me/volta para mim dentro de 2 horas a correr mal”, o “desgraçada/o de mim que vou mesmo morrer só e só me vão encontrar morta/o passada semana e meia” e o clássico “se Deus realmente existisse, arrependimento de toda e qualquer espécie por todo e qualquer evento, seria doença terminal sem hipótese de cura, com morte lenta e dolorosa e sorriso estupido para toda gente não topar que estás a dar as ultimas”
• Joni Mitchell - Caga nisso, ainda podes ficar bem pior do que o que estás, afinal de contas ainda só estás na casa dos 20/30, imagina que ainda vives mais 30 anos com o mesmo registo emocional? Quais são as probabilidades de não receberes o famoso envelope fechado a entregar no guichezinho do Magalhães, ou pura e simplesmente “nel mezzo del camin di nostra vita” te entregares ao cativeiro de livre e espontânea vontade? Pensa sobre isto, enquanto fumas cigarro atrás de cigarro a olhar para o tecto, deitado na cama feita (ou que tu propria/o fizeste, ou te fizeram…). Mínimo 3 maços em 6 horas, com ou sem aditivo. Aqui a regra é encher o pulmãozinho e dar um break ao figado, mas se tiveres com muita sede só podes beber whiskey pela garrafa (e sem intrevalo para cara feia!)
• Depeche Mode - Não te preocupes, ele/a é mesquinho e vai-se foder mais tarde ou mais cedo (ou não, que a esta hora já está com outro animal qualquer da mesma espécie, eles merecem-se… seja lá o sentido que queiras dar a isto.), Anyway, estás na merda e estás. Serve-te do estatuto “urbano-depressivo” atrás conquistado e desata ao pontapé a mesas cheias de coisas importantes e valiosas (basicamente que te sairam do corpo, o que quer que isto queira dizer), dá passos atrás em camera lenta, passeia o quarto com a cabeça a rolar nas quatro paredes, desanca estantes com tacos de baseball (de carbono, leves o suficiente, eficazes o suficiente) e faz o lançamento do telemovel do quarto andar (tenta acertar num camião que leve porcos para abate).
• Costeau - Produz-te, sim produz-te ao máximo. Se fores mulher exagera na make-up (for ever) cuja cor dominante seja o preto (nos olhos) e veste aquele vestido (preto, já ficas aviada), com aqueles saltos (pretos, obviamente). Se fores homem, exagera na metrosexualidade (tenta é não passar para a equipa contrária ou para o terceiro género), pensa que és o James Bond (fatinho preto, camisinha branca e já ficas aviado) e vais para um casino qualquer (na verdade não vais é a lado nenhum, aqui está a hora do isolamento e da falta de comunicação… o telemovel já vai a caminho de Alverca, remember?). Em ambos os casos, senta-te no fundo da cama (se for de casal, excelente! a dor torna-se mais aguda enquanto começas a alucinar e a ver os vossos momentos bonitinhos que nunca mais se vão repetir), apoia os cotovelos nos joelhos e a cabeça nas mãos, fuma cigarro atrás de cigarro, chora o mais que puderes (para a make-up borratar) e soluça até te engasgares com o fumo, as lagrimas e o famoso pingo no nariz (é quase inverno e não há nada como bater mal em dezembro (solidão/natal/passagem d’ano - combinação explosiva para assuntos meladinhos e melindradinhos)) e permanece inerte o máximo de tempo possível. Estás na merda, mas estás com estilo (se é que isso importa), e não, nada vai mudar depois disto, e sim, aquele foi mesmo o “last good day of the year”
• Jay-Jay Johanson - Esta aqui é para aliviar um bocadinho a pressão e ao mesmo tempo fazer joguinhos mentais (macabros, leia-se). Existem freaks bem piores que os/as que tu sacas, estão soltos/as e ainda não os/as apanhaste. Mas como a esperança é aquela coisa com penas e tens aquele dedinho especial para estas coisas, ainda os/as vais desencantar mais cedo do que julgas e na volta estão a um palmo do teu nariz. Faz uma lista mental dos freaks que apanhaste no passado e uma lista de potenciais freaks á solta num raio máximo de 7 km, só não passes do segundo grau de ligação, não vale a pena o esforço mental (se é que ainda consegues pensar seja no que for). Permite-te sorrir (ou mesmo desatar á gargalhada espontanemente, de ti própria/o ou patrocinada/o pelo james martin) enquanto lambes as lágrimas (e o rimel) e ainda achas que “so tell the girls that I am back in town” te vai animar e incentivar a sair de casa á procura do/a TAL (freak.).
• Jeff Buckley - Corta mesmo os pulsos (com os cacos de umas musicas atrás), esfrega-os com limão e vai para a banheira beber cocktails esteticamente perfeitos, iluminada/o a 1000 velas de cheiro (que provoquem a nausea á nona potencia) estrategicamente posicionadas perto de objectos potencialmente inflamáveis (o fogodesinfecta e liberta, dizem…), usando o underwear mais caro e mais sexy que tiveres (se não vai comprar e gasta todo o dinheiro que tens, afinal de contas vale a pena, pode ser que o gajo/a do INEM te ache piada e até fiques com ele no final do próximo ano. (Tudo isto se não tiveres passado para o outro lado (apagado a vela, dado o ultimo pio do mocho ou da águia ou o peido, melrado, quinado, entregue a alma á procedêndia (o Criador)) de uma das três formas: doação total (final) de sangue aos SMAS, congestão/evenenamento/overdose, estranhamente queimado ou então das três ao mesmo tempo)).
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