19.12.2008

Eduardo Morais

#45

Acerca do Bagaço

Acerca do anterior artigo, a própria autora questionou-me se eu estaria no meu perfeito juízo ao aprovar tão ilustrativo poio no espaço mais nobre do Cafeína. Eu respondi que sim, justificando com o facto do Cafeína ser um espaço de vocação cultural, e esse Professor Herrero, cuja obra admito desconhecer, parecer ser uma sugestão interessante. Espero, aliás, que o Professor Marcelo recomende o tal “Cagalhão na Tola” a qualquer momento.

Aproveito, já agora, para recomendar “Estrume - Miscelânea sobre o Outro, o Estranho e o Repugnante”, de Miguel Clara Vasconcelos e Nuno Mourão, uma edição Teatro Não em 2004, com o depósito legal número 216791/04.

Existe todavia uma segunda motivação para a minha decisão de manter a supracitada imagem, e ter prestado todo o apoio técnico à sua inclusão. A fétida e malcheirosa presença requer obviamente uma descarga do autoclismo, e sendo a palavra a água que corre neste site, isto requer um esforço redobrado na produção de texto, e é por isso que vos escrevo nesta prosa bastante chata e irritante, como quem escreve uma tese sobre Derrida ou coisa do género.

Aliás,
também
posso
fazer
batota
e
escrever
uma
palavra
por
linha
o
que
é
extremamente
irritante
para
o
leitor
e
por
isso
vou parar.

Mas hoje queria falar sobre Bagaço. Não o split, mas acerca do ‘cheirinho’ propriamente dito, que a fazer fé na Wikipedia “é um dos subprodutos da indústria da cana, assim como a sacarose e a palha, e é constituído por celulose, hemicelulose e lignina”, o que não me parece lá muito bem pois soa demasiado industrial. Talvez seja por isto que presumo que o Bagaço seja a principal matéria prima de toda a panóplia de bebidas alcoólicas ‘Made in Valongo’, populares na confecção de shots, e que realmente parecem e sabem a Bagaço com corante e um maior ou menor grau de adoçante.

Uma das coisas que mais prezo no meu dia é o momento do café a seguir ao almoço. Que posso dizer? Sou um apreciador de um bom café. O outro dia decidi experimentar o tasquinho que fica mesmo em frente à porta do edifício onde tenho o meu escritório. A ementa chamou-me a atenção por sugerir coisas saudáveis, algo muito raro no coração do Porto, onde o frito em óleo gasto é rei e senhor. E realmente comi uma boa salada de atum, muito bem temperada, generosa no ovo cozido e nas azeitonas pretas - ainda por cima daquelas sem caroço, o que facilita. Um bom café viria mesmo a calhar após tão proveitoso repasto, mas o que recebi foi uma dose não-solicitada de recordações de Benlhevai e do seu Café Central. Dei o incidente por casual e voltei a tentar pedir um café no mesmo sítio uns dias mais tarde. Nada feito. Por melhor que seja a confecção dos pratos, todas as chávenas do sítio estão tingidas de Bagaço, e do mesmo modo que posso fumar uma cigarrilha mas não suporto que me deitem fumo para cima, também não suporto o Bagaço Passivo.

Não estou, entenda-se, a condenar o Bagaço. O Bagaço tem lugar, principalmente no final de jantares bem regados a tinto de qualidade decrescente. Existe também uma série de truques giros que se podem fazer com chávenas de café, Bagaço e um isqueiro e/ou fósforos. Mas a chávena tingida é algo que efectivamente não aprecio.

No início da Rua Álvares Cabral, junto à Faculdade de Farmácia, há um restaurante que anuncia na montra dois menus: um é o Menu do Estudante, o outro é o Menu do Trabalhador. Consistem exactamente nos mesmos items - sopa, pão, prato do dia, bebida de garrafa de 33cl e café, mas ao Menu do Trabalhador acrescem 50 cêntimos e um Bagaço. Não há melhor metáfora para Portugal - o Trabalhador distingue-se do Estudante por meio euro e um Bagaço.

Talvez seja por isso que a minha geração vive na precariedade, do estágio não-remunerado ao recibo verde. Não compreendemos que o bafo a Bagaço a seguir ao almoço é o ‘secret handshake’ de acesso a um trabalho com bons salários, direitos e regalias…

Tags: ed, portugal, sociedade


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