Enchendo Chouriços
Cultura em Portugal. Três palavras que levam a reacções tão diferentes quanto os dez milhões de portugueses. Temos por exemplo o Tó, que fica instintivamente enjoado com a “merda dos intelectuais, paneleiros!, parasitas de merda!, ide trabalhar!” - pensou ele quando bebia uma cerveja no café da esquina, paga com o dinheiro que a Manuela, uma actriz desempregada, teve que entregar à Segurança Social. Para a Manuela, a Cultura em Portugal lembra-lhe o trabalho que não tem. Hoje, em desespero, até foi baixa o suficiente para ir ao casting para um musical do Filipe La Féria. Já ao Dr. Rui Rio a Cultura lembra os espetáculos que tem que organizar para conquistar votos onde interessa - na Foz e nos Bairros. Aquelas coisas mais maradas e/ou sérias de que a Manuela gosta que se fodam!, ela nunca iria votar nele de qualquer forma. Já para Guilherme, seu ex-namorado e actual gay e parte do elenco de um musical do La Féria, Cultura é prestígio, dinheiro, coisas bonitas e uma maneira de conhecer rapazes giros. É ser superior a pessoas como o Tó que lhe batiam na escola.
Já para mim não existe Cultura em Portugal. Há Jogos e Esquemas que envolvem a produção de muito comentário e conversa (como este artigo) e por raras vezes, a produção de alguma coisa que realmente se pode experienciar - uma peçazinha, um filmezito, uma exposiçãozeca. Muito de vez em quando, até pode ser alguma coisa decente. Mas como estes casos de verdadeiro sucesso não têm piada, vou falar da generalidade, ou seja, do Fracasso.
Em Portugal há dois tipos de Fracasso artístico. Há aqueles Fracassos muito bem disfarçados por Egos e Interesses de modo a que o Medo nos leve a considerá-los sucessos (nem o Sócrates resistiu a ter medo do Manuel de Oliveira*). Destes já falei.

