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11.07.2008

Eduardo Morais

#10

Passwords

”- Amigo, você vai para casa?”
”- Amigo, não vamos todos para casa?”

Estas são, a acreditar na introdução do mais recente livro de Douglas Coupland, The Gum Thief, uma senha e contra-senha em tempos utilizadas por membros da Maçonaria para se identificarem entre estranhos. Não consigo ainda compreender se serei ingénuo, se serei paranóico - provavelmente estarei em simultâneo no limiar de ambos os estados - mas ultimamente tenho-me apercebido do modo como o espaço alargado do cinema português* parece funcionar num registo de senhas e contra-senhas.

Falo em ‘espaço alargado’ porque é evidente que o ‘cinema português’ é um mundo muito mais vasto do que o conjunto de pessoas que realmente querem fazer ou trabalhar em filmes em Portugal. É que muitas das pessoas que neste país fazem filmes não os querem realmente fazer. Daí as pequenas catástrofes que é possível ver nos festivais de cinema, como por exemplo uma abominação de 25 minutos chamada “Fevereiro”**, de Francisco Botelho, a que alguns dos membros do Cafeína foram sujeitos em Vila do Conde na passada quarta-feira. Acredito sinceramente que há dois tipos de pessoas que fazem filmes em Portugal: as que querem fazer filmes, e as que querem simplesmente Aparecer. Ou seja, ou é pelo Trabalho, ou é pelo Ego. E por muita falta de jeito que haja, por pior que seja o resultado final, há coisas que são simplesmente impossíveis quando estamos nisto pelo Trabalho e existe Gosto no que fazemos. Neste caso, a incompetência era total na fotografia - aquilo a que chamo a “noite portuguesa” merecia um texto por si só -, na montagem, na direcção de actores - sei que a Ana Moreira é uma excelente actriz e até me senti de algum modo envergonhado por estar a ver o filme - e sobretudo no texto e no conceito - como disse o meu amigo Henrique “a apatia está aí, por todo o lado”, não é preciso querer ilustrar isto com uma historieta de alguém que se decide suicidar para fugir à polícia depois de ter roubado um automóvel - acreditem que é verdade.

Mas o que tem isto a ver com a história das senhas e contra-senhas?

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08.12.2008

Eduardo Morais

#40

As antigas normas de higiene

Sem nada melhor para fazer que ler pela enésima vez os arquivos do Cafeína, encontrei este artigo do Alexander onde são colocadas algumas questões pertinentes acerca da razoabilidade de certas passagens da Bíblia, nomeadamente o controverso Livro do Levítico, que recomenda punições de certo modo desagradáveis (como por exemplo a lapidação) para comportamentos aparentemente inofensivos, tais como tocar na pele de um porco, comer marisco ou praticar a sodomia. São ideias, portanto, do mais bárbaro e do mais retrógrado que há, certo?

Pois bem, eu cá acho que o Livro do Levítico é a parte da Bíblia que até está certa. É que se tudo começa, parafraseando Iain Banks, com um doente esquizofrénico que afirmava que um arbusto flamejante lhe disse para matar o filho (sendo assim uma espécie de Son of Sam do mundo antigo), já a tal subestimada parte do Levítico é perfeitamente racional, pois estou convencido que o Livro seria uma colecção de conselhos sobre higiene (cuja discordância implicava a morte às mãos de uma multidão em fúria, mas isso são pormenores).

Por exemplo, aquilo do marisco: Hoje sabemos que as coisas que vivem na água têm o potencial para causar umas intoxicações alimentares lixadas. Ainda com todas as normas e fiscalizações, comer mexilhões e ameijoas é arriscar um pouco. Não admira assim que um Rei antigo, perante um surto de diarreia entre os frequentadores de uma certa marisqueira em Tel Aviv, tenha optado por mandar massacrar todos os envolvidos, já que na altura a Medicina estava pouco desenvolvida e a Morte era mesmo o melhor remédio. A questão da carne de porco será aliás a mesma. Numa palavra: salmonelas.

Quanto à questão melindrosa da homossexualidade: era, de facto, uma abominação. Basta pensar que à época o papel ainda não tinha sido inventado, muito menos o higiénico. Ou, por outras palavras: bactérias comedoras de carne. Se somarmos o facto de que nesses tempos antigos pensava-se que tomar banho fazia mal, o que é de admirar é que ainda existisse qualquer tipo de sexualidade. Julgo aliás, que a heterossexualidade só não foi uma abominação punida com a morte porque lá iam aparecendo uns bebés pelo meio das doenças venéreas e do pus.

Sendo um texto com mais de duas dezendas de séculos, há muitas imprecisões no Levítico: não cortar o cabelo não é a melhor solução para os piolhos e para as carraças. Queimar um touro no altar (ou em qualquer outro sítio), não é um cheiro apenas agradável para o Senhor - é-o para todos os apreciadores de churrasco, pelo que quem vê mal não se deve aproximar dos templos, não vá confundir um sacerdote com um empregado de mesa - o que os sacerdotes levam a mal.

Pelo menos, aqui não há truques de ilusionismo nem trips induzidas por pão de centeio fora do prazo. É tudo completamente racional. Muito pouco informado, mas racional…



18.01.2009

Eduardo Morais

#49

Procrastinar

Procrastinar: Deixar para depois o que podia fazer agora. Deixar para amanhã o que podia fazer hoje. Ou já agora para a próxima semana. Ou para quando for oportuno. Ou seja, protelar, coçar os tomates, coçar o escroto, coçar a micose.

A Procrastinação é tramada, não admira que a Preguiça seja um pecado mortal. Arranja sempre uma desculpa:

Vou só acabar de ver isto que comecei ainda agora a ver na televisão. Vou é buscar um iogurte ao frigorífico. Vou só espreitar o mail. E já que estou online, o Cafeína. E o outro lado do espelho. E os meus feeds. E ainda, se a mulher da minha vida não estará entre os ‘recommended friends’ do Facebook.

Pronto. Vou trabalhar. É cuspir qualquer coisa para o Twitter e estarei pronto.

Trinta segundos depois:

Lá está a besta do vizinho a bater com a porta da rua e a falar alto nos corredores. A rua está pavimentada a ‘paralelo’, ouvem-se muito os carros. O computador faz barulho. Vou é pôr música.

Descubro que muitos dos álbuns na minha biblioteca de música não têm capa. Sinto uma necessidade imensa de corrigir este problema.

Duas horas depois:

Tenho que escrever isto no Twitter. Bem já agora deixa ir ao Facebook. E ao Cafeína. Pois é, falo muito mas devia saber algo mais sobre o John Coltrane. Wikipedia.

Quatro horas depois:

Vou definitivamente trabalhar. Maldita procrastinação! Que, pensando bem, é a mãe de todas as invenções. O tipo que inventou a fotocopiadora perdeu várias décadas da sua vida a tentar não ter que copiar coisas à mão.

Olha, boa frase. Vou é escrever no Cafeína. O trabalho pode ficar para a seguir.

Depois dos Simpsons, do jantar, e do Bruno Aleixo…







O Cafeína regressou em Junho de 2008, com uma nova edição de cerca de cinquenta artigos.

Esta edição durou até Março de 2009. O site foi incapaz de manter, na era da 'Web 2.0', o interesse suscitado pela primeira edição.

Podes consultar todos os artigos aqui colocados durante essa época. Consulta também o Volume 1 (2000-2005).

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