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08.12.2008

Eduardo Morais

#40

As antigas normas de higiene

Sem nada melhor para fazer que ler pela enésima vez os arquivos do Cafeína, encontrei este artigo do Alexander onde são colocadas algumas questões pertinentes acerca da razoabilidade de certas passagens da Bíblia, nomeadamente o controverso Livro do Levítico, que recomenda punições de certo modo desagradáveis (como por exemplo a lapidação) para comportamentos aparentemente inofensivos, tais como tocar na pele de um porco, comer marisco ou praticar a sodomia. São ideias, portanto, do mais bárbaro e do mais retrógrado que há, certo?

Pois bem, eu cá acho que o Livro do Levítico é a parte da Bíblia que até está certa. É que se tudo começa, parafraseando Iain Banks, com um doente esquizofrénico que afirmava que um arbusto flamejante lhe disse para matar o filho (sendo assim uma espécie de Son of Sam do mundo antigo), já a tal subestimada parte do Levítico é perfeitamente racional, pois estou convencido que o Livro seria uma colecção de conselhos sobre higiene (cuja discordância implicava a morte às mãos de uma multidão em fúria, mas isso são pormenores).

Por exemplo, aquilo do marisco: Hoje sabemos que as coisas que vivem na água têm o potencial para causar umas intoxicações alimentares lixadas. Ainda com todas as normas e fiscalizações, comer mexilhões e ameijoas é arriscar um pouco. Não admira assim que um Rei antigo, perante um surto de diarreia entre os frequentadores de uma certa marisqueira em Tel Aviv, tenha optado por mandar massacrar todos os envolvidos, já que na altura a Medicina estava pouco desenvolvida e a Morte era mesmo o melhor remédio. A questão da carne de porco será aliás a mesma. Numa palavra: salmonelas.

Quanto à questão melindrosa da homossexualidade: era, de facto, uma abominação. Basta pensar que à época o papel ainda não tinha sido inventado, muito menos o higiénico. Ou, por outras palavras: bactérias comedoras de carne. Se somarmos o facto de que nesses tempos antigos pensava-se que tomar banho fazia mal, o que é de admirar é que ainda existisse qualquer tipo de sexualidade. Julgo aliás, que a heterossexualidade só não foi uma abominação punida com a morte porque lá iam aparecendo uns bebés pelo meio das doenças venéreas e do pus.

Sendo um texto com mais de duas dezendas de séculos, há muitas imprecisões no Levítico: não cortar o cabelo não é a melhor solução para os piolhos e para as carraças. Queimar um touro no altar (ou em qualquer outro sítio), não é um cheiro apenas agradável para o Senhor - é-o para todos os apreciadores de churrasco, pelo que quem vê mal não se deve aproximar dos templos, não vá confundir um sacerdote com um empregado de mesa - o que os sacerdotes levam a mal.

Pelo menos, aqui não há truques de ilusionismo nem trips induzidas por pão de centeio fora do prazo. É tudo completamente racional. Muito pouco informado, mas racional…







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