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29.06.2008
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Eduardo Morais
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Redes anti-sociais Estava eu a beber umas cervejas com uns amigos num bar algo escuro e com música ao vivo e reparámos em duas moças aos risinhos noutra mesa, meio escondidas atrás de uma maçã fluorescente. “É o Futuro”, pensei eu, “o petróleo está a preços de ficção científica e a malta sai à noite com o portátil”. Mas achei que valia a pena averiguar o porquê dos risinhos. Fui buscar uma rodada ao bar e espreitei o ecrã do computador. Vi aquilo que temia: o Hi5. As moças estavam a passar a noite num bar. Mas a micar gaijos na Internet!
Eu confesso: tenho um perfil no Hi5 (e no LinkedIn, e no Star Tracker, e no MySpace - mas nunca tive paciência para este). Tenho um catálogo de amigos, amigas, e algumas pessoas que não conheço de lado nenhum mas não quis ofender. E o mais estranho é que não sei explicar porquê. Ou se calhar sei: somos tristes e sós. Esperamos que alguma amiga das nossas 276 amizades no Hi5 seja a mulher da nossa vida, além de gira e boa. Esperamos que algum contacto de um dos nossos 353 contactos no LinkedIn tenha de alguma forma a responsabilidade de gastar o dinheiro do Joe Berardo num jovem licenciado com pouca experiência.
As redes sociais são um pouco como jogar no Euromilhões. Todos queremos alguma coisa de alguém, por vezes precisamos é de descobrir de quem.
São também óptimas ferramentas para reencontrar pessoas. Por exemplo: há uns tempos vi num café uma Miúda Gira que andou na mesma escola que eu, e que na altura nunca tive coragem de abordar. O que é que faço? Ajo como um Homem e vou lá meter conversa? Ou chego a casa, entro no Hi5 e procuro o grupo da nossa antiga escola? Foi isso que fiz. Ali está uma rapariga que costumava dar-se com a Miúda Gira, deixa ver que amigas ela tem… e ali está, a Miúda Gira. Carrego ou não carrego? Carrego. Logo para começar, o perfil tem um fundo arco-íris que o torna quase ilegível. E depois ali está, o inevitável favourite book, “O Alquimista” de Paulo Coelho. Miúda Gira, estou contente por não ter metido conversa contigo.
É evidente que isto é um pouco alienante, creepy e um pouco alienante e creepy. Também já se deu o caso de eu conhecer Miúdas Giras que não saem para tomar café porque estão ocupadas, ocupadas a juntar mais 27 amigos à colecção, a atirar almofadas a Fulano, a fazer cócegas a Cicrano, e a enviar videos do Enrique Iglesias a toda a gente. Sim, sou um ressabiado. Mas depois ainda tenho as amigas e amigos que ficam magoados por não serem um top friend. Onde é que isto acaba?
Eu sei onde acaba. Top friends é um conceito limitado. Acho que o Hi5 ou o Facebook para serem sites perfeitos dever-nos-iam permitir cotar os nossos amigos com estrelas. “Hm, a A. chega atrasada sempre que vamos sair: três estrelas”. “O B. está sempre a cravar boleia: duas estrelas”. Ficaríamos todos só com bons amigos. Muito poucos amigos, mas bons amigos. |
04.07.2008
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Eduardo Morais
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Pirâmides Há uns dias recebi um e-mail de um senhor que se apresentou como Ministro dos Transportes da Gâmbia em que me era pedida ajuda financeira. Sim, a mim!, um portuguesito com uma conta bancária igualmente diminutiva.
Continuando. O Ministro dos Transportes da Gâmbia necessitava de dez mil euros para pagar uma taxa qualquer para fazer qualquer coisa envolvendo muito milhões de dólares que estão num banco suíço. Mais tarde eu receberia os meus dez mil euros de volta, mais um milhão de dólares. Ou seja, tendo em conta a cotação do dólar, pagar-me-ia mais uns 10% de juros. Não é um negócio lá muito atractivo, mas em tempo de crise, porque não?
Acabei no entanto por ignorar o pedido. Pensei, é para este tipo de situações que existem as Cofidis e as Crediais. Levam um juro um bocadinho maior, mas acho que quem tem muitos milhares numa conta na Suíça pode dar conta do recado (a menos que já tenha andado a comprar uns sofás e uns plasmas). Eu cá vou mais pelo velho ditado: “Ninguém dá nada a ninguém”, ou mais exactamente pela versão Wall Street - “Não há almoços grátis” (curiosamente, a malta de Wall Street rege-se pela versão Tony Soprano - “What in it for me?”).
“Ninguém dá nada a ninguém” e pior, em tempos de crise (entre outros) “todos nos querem vir ao bolso”. No entanto hoje vi uma reportagem no Telejornal e achei engraçado que enquanto “todos nos querem vir ao bolso” há quem acredite que há por aí umas ‘oportunidades’ para fazer um monte de dinheiro, entrando no ‘jogo da roda’. Só precisamos de ‘investir’ uns milhares de euros!
Não entro nessa. Se quiser perder uns milhares de euros, faço-o como deve ser: no Casino. Aí sim, há profissionais que nos garantem que a nossa experiência de perder dinheiro foi pensada por quem sabe fazer os outros perder dinheiro. É como a questão de não haver pior forma de morrer que assassinado por quem não tem lá muito a certeza do que está a fazer. No Casino bebem-se uns copos de whisky de qualidade, vê-se um show de miúdas de plumas e mamilo ao léu, e pelo meio escolhemos a velocidade com que nos queremos desgraçar - mais lento nas slots e máquinas de póquer, mais rápido a fazer apostas abstuntas na roleta. Estar num café com (futuros ex-)amigos a desenhar em guardanapos umas bolhas que afinal são círculos que afinal são cones vistos de cima é que não tem lá muita piada.
Um cone é parecido com uma Pirâmide depois de desbastada e polida. Os novos burlões chegaram à mesma conclusão que alguns concursos televisivos: uns gráficos fixes ajudam. No entanto nem toda a gente cai nisto, pelo que alguns recorrem a outros métodos. Há quem meta no jogo uns selos ou uns cremes muito caros. E há os que tentam enganar a malta com espetáculos mal coreografados em hotéis de três estrelas, em que toxicodependentes excitados testemunham como enriqueceram e o esquema é do bom e do melhor. Se há sítio onde nunca me apanharão se eu enriquecer é precisamente numa cave fluorescente a dizer a donas de casa desesperadas e a ex-presidiários o rico que sou. A essa hora estaria era a desgraçar-me no Casino.
Por Casino entenda-se a Bolsa de Valores… |
23.07.2008
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Eduardo Morais
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Enchendo Chouriços Cultura em Portugal. Três palavras que levam a reacções tão diferentes quanto os dez milhões de portugueses. Temos por exemplo o Tó, que fica instintivamente enjoado com a “merda dos intelectuais, paneleiros!, parasitas de merda!, ide trabalhar!” - pensou ele quando bebia uma cerveja no café da esquina, paga com o dinheiro que a Manuela, uma actriz desempregada, teve que entregar à Segurança Social. Para a Manuela, a Cultura em Portugal lembra-lhe o trabalho que não tem. Hoje, em desespero, até foi baixa o suficiente para ir ao casting para um musical do Filipe La Féria. Já ao Dr. Rui Rio a Cultura lembra os espetáculos que tem que organizar para conquistar votos onde interessa - na Foz e nos Bairros. Aquelas coisas mais maradas e/ou sérias de que a Manuela gosta que se fodam!, ela nunca iria votar nele de qualquer forma. Já para Guilherme, seu ex-namorado e actual gay e parte do elenco de um musical do La Féria, Cultura é prestígio, dinheiro, coisas bonitas e uma maneira de conhecer rapazes giros. É ser superior a pessoas como o Tó que lhe batiam na escola.
Já para mim não existe Cultura em Portugal. Há Jogos e Esquemas que envolvem a produção de muito comentário e conversa (como este artigo) e por raras vezes, a produção de alguma coisa que realmente se pode experienciar - uma peçazinha, um filmezito, uma exposiçãozeca. Muito de vez em quando, até pode ser alguma coisa decente. Mas como estes casos de verdadeiro sucesso não têm piada, vou falar da generalidade, ou seja, do Fracasso.
Em Portugal há dois tipos de Fracasso artístico. Há aqueles Fracassos muito bem disfarçados por Egos e Interesses de modo a que o Medo nos leve a considerá-los sucessos (nem o Sócrates resistiu a ter medo do Manuel de Oliveira*). Destes já falei. Ler o resto deste artigo... |
12.08.2008
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Eduardo Morais
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Metam-se na vossa vida! Ando eu pela rua na minha vidinha, máquina fotográfica dentro do saco a tira-colo, quando vejo uma parede com cartazes rasgados que cumpre uma qualquer coisa estética de que gosto. Ou era um puxador de uma porta, ou o arranjo das linhas pintadas no pavimento. Instintivamente saco da máquina fotográfica e preparo-me para tirar uma fotografia.
De repente sinto uma presença maligna nas minhas costas. “Oh não”, penso. Relutantemente viro a cabeça e lá está ele: Um Velho, parado, mãos nos bolsos, olhando-me com um sorriso nojento e até algo pervertido, sonoras as engrenagens do seu pensamento: “Olha-me este paneleiro, não percebe um caralho de fotografia. Porque é que não vai ali fotografar o coreto, aquilo é que é bonito?”.
Tiro a fotografia e vou embora, passo apressado. Desta vez evitei qualquer forma de diálogo. Tive sorte. Se há característica verdadeiramente odiosa no povo português é o modo como o pudor e a bisbilhotice andam do avesso. Não se mete na sua vida. Quantas lições de fotografia já não tive, dadas por especialistas instantâneos na matéria? Devia era fotografar o que é ‘bonito’, os Clérigos, umas flores não sei onde, a Câmara, o Estádio do Dragão. Sâo os famosos bitaites, aqueles que me dão vontade de responder com uns bufardos. Qualquer coisa serve. Posso estar a mudar o pneu do meu carro, fazendo-o da forma expedita de quem sabe o que está a fazer, que haverá sempre alguém a parar para me dar uma dica. O Português anda pela rua, micando que nem um guia governamental norte-coreano.
Nada se compara ao Pesadelo que é andar com uma câmara de vídeo pela rua. Já não bastam os parvalhões que começam a caminhar em slow-motion, bigode farfalhudo e ‘raybantes’ à carapau de corrida atravessando-se à frente daquilo que eu queria filmar (não admira que gostem tanto do ‘Animal’, no fundo todo o Português o tem dentro de si). Há aquelas pessoas que têm que, a todo o custo, fazer o seu tempo de antena. Como a ‘Tia’ cara-de-hipopótamo que nos apareceu o outro dia:
- Vocês são da SIC? - Não, minha senhora. - Ah. Mas vocês deviam era estar a filmar aquilo.
“Aquilo, o quê?”, pensei.
- Aquilo ali é uma pouca vergonha. Obrigam uma pessoa a descer o passeio. O outro dia eu deitei aquilo abaixo e nem levantei, para verem se aprendem. Aquilo é ilegal.
‘Aquilo’ era o letreiro com os pratos do dia que um café do outro lado da rua tinha à porta. O meu instinto era hostilizar a cabra com qualquer coisa do género “minha senhora, coma menos bolos que já consegue passar ali”, mas em vez disso acobardei-me:
- Pois, mas nós estamos aqui a filmar um videoclip. - Mas vocês deviam era filmar aquilo. É uma pouca-vergonha. E depois fecha tarde. Sabe que há gente que mora aqui.
Silêncio. Olhei para os andares superiores do edifício, todos eles preenchidos com o mesmo anúncio de uma clínica de radiologia.
- Quer dizer… Aqui não, mas…
A senhora entrou em desespero, apercebendo-se que naquela zona só havia escritórios.
- Mas há gente que mora aqui perto, e isto é uma pouca vergonha. Até já mandei uma carta à SIC a pedir para virem cá filmar, por isso é que pensei… - Pois, mas nós estamos a trabalhar.
Continuei o que estava a fazer ignorando a Tia Obesa por completo até ela se ir embora, evidentemente ressentida por nós não denunciarmos a injustiça que é uma placa com os pratos do dia de um café a ocupar 50cm de passeio. Será que tenho cara de Opinião Pública ou de Fórum TSF? |
18.09.2008
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Eduardo Morais
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Aquele Querido Mês de Agosto Por uma vez vou escrever sobre cinema com a intenção de tecer rasgados elogios. E ainda por cima, aquilo a que tenciono tecer rasgados elogios é um filme português. E não, não estarei a ser cínico. O filme chama-se Aquele Querido Mês de Agosto e foi realizado por Miguel Gomes.
Os mais antigos leitores do Cafeína, ou os meus amigos que me conhecem há mais tempo e tomam atenção a aquilo que digo (será que existem?), interrogar-se-ão: “Miguel Gomes!? Mas esse não era o gajo?…” Sim, o Miguel Gomes era um dos gajos na minha lista negra pessoal de realizadores portugueses, graças a curtas-metragens como Ménage-a-Trois na Quinta da Marinha (aliás, Entretanto) e Miúdos com Olhos Manga à Solta na Expo (aliás, Kalkitos), que na verdade continuam a ser objectos do meu mais profundo desprezo. Foi por isso que quando soube que vinha aí uma longa-metragem de Miguel Gomes, limitei-me a torcer o nariz. No entanto, eis que vejo o cartaz, que até tinha pinta. Depois vi o trailer, que até tinha bom aspecto. E um making-of, na RTP2, que achei interessante. Fiquei assim na situação desagradável de ter que ir ver o raio do filme para poder continuar a dizer mal.
E ainda bem que fui, mesmo dando a mão à palmatória: Aquele Querido Mês de Agosto é um bom filme, e aos meus olhos uma redenção em estilo para o Miguel Gomes. Sem ser revolucionário (olhando para a História do cinema), o filme faz mesmo assim um exercício raro: é um três-em-um que combina 1. uma historinha de amor ficcional, 2. um documentário sobre as festas de Agosto nas aldeias beirãs, e 3. o making-of de uma historinha de amor ficcional. É uma sopa de tudo, mas que tal como as sopas da avó da aldeia, consegue ser extremamente apetitosa (aliás, estou a salivar abundantemente enquanto escrevo) mesmo contendo todos os ingredientes do mundo.
Aquele Querido Mês de Agosto não é um filme perfeito. Ler o resto deste artigo... |
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O Cafeína regressou em Junho de 2008, com uma nova edição de cerca de cinquenta artigos.
Esta edição durou até Março de 2009. O site foi incapaz de manter, na era da 'Web 2.0', o interesse suscitado pela primeira edição.
Podes consultar todos os artigos aqui colocados durante essa época. Consulta também o Volume 1 (2000-2005).
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